quinta-feira, 7 de julho de 2016

Beatriz - Humberto de Campos

Beatriz
Humberto de Campos

Bandeirante a sonhar com pedrarias,
com tesouros e minas fabulosas,
do Amor entrei, por ínvias e sombrias
estradas, as florestas tenebrosas.

Tive sonhos de louco, à Fernão Dias...
Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
selvas, o ouro encontrei, e o ônix, e as frias
turquesas, e esmeraldas luminosas...

E por eles passei. Vivi sete anos
na floresta sem fim. Senti ressábios
de amarguras, de dor, de desenganos.

Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
com o rubi palpitante dos seus lábios
E os dois grandes topázios dos seus olhos!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Lágrimas - Bento Ernesto Júnior

Lágrimas
Bento Ernesto Júnior

A vida, meu amor, que hoje passamos
Só pode ser com lágrimas descrita,
Tão grande a dor que o peito nos habita,
Tão amargo este fel que hoje provamos.

Tão nublados de lágrimas levamos
Os olhos, sob o peso da desdita,
Que tudo que ante nós vive e palpita,
Tudo inundado em lágrimas julgamos.

E todo esse lutuoso mar de pranto,
Que vemos em nossa alma e em tudo vemos,
Nasce de havermos nos amado tanto!...

Porém, embora a amar, tanto soframos,
Cada vez mais, amada, nos queremos,
Cada vez mais, querida, nos amamos.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Estranhas Lágrimas - Félix Pacheco

Estranhas Lágrimas
Félix Pacheco

Lágrimas... Noutras épocas verti-as.
Não tinha o olhar enxuto, como agora,
- Alma, dizia então comigo, chora,
Que o pranto diminui as agonias.

Ah! Quantas vezes pelas faces frias,
Por mal do meu amor, que se ia embora,
Gota a gota, rolando, elas outrora,
Marcaram noites e marcaram dias!

Vinham do oceano da alma, imenso e fundo,
Ondas de angústia, em suspiroso arranco,
Numa desesperança acerba e louca.

Nos olhos, hoje, as lágrimas estanco,
Mas rolam todas, sem que as veja o mundo,
Sob a forma de risos, pela boca.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O Monge - Raimundo Correia

O Monge
Raimundo Correia

“O coração da infância – eu lhe dizia –
É manso”. E ele me disse: - “Essas estradas,
Quando, novo Eliseu, as percorria,
As crianças lançavam-me pedradas...”

Falei-lhe, então, na glória e na alegria;
E ele – alvas barbas longas derramadas
No burel negro – o olhar somente erguia
Às cérulas regiões ilimitadas...

Quando eu, porém, falei no amor, um riso
Súbito as faces do impassível monge
Iluminou... Era o vislumbre incerto,

Era a luz de um crepúsculo indeciso
Entre os clarões de um sol que já vai longe
E as sombras de uma noite que vem perto!...

domingo, 3 de julho de 2016

Passei a noite junto dela - Álvares de Azevedo

Passei a noite junto dela
Álvares de Azevedo

Passei a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós – e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro...

sábado, 2 de julho de 2016

O Morcego - Augusto dos Anjos

O Morcego
Augusto dos Anjos

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede...”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Budismo Moderno - Augusto dos Anjos

Budismo Moderno
Augusto dos Anjos

Tome, Doutor, esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharada roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contado de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades

Do último verso que eu fizer no mundo!

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Terra do Brasil - D. Pedro II

Terra do Brasil
Pedro de Alcântara (D. Pedro II) (Escrito em Paris)

Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda esperança
De volver ao Brasil: de lá me veio
Um pugilo de terra: e nesta creio
Brando será meu sono e sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo-me a memória,
Ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de glória,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A justiça de Deus na voz da história!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O Sonho dos Sonhos - Múcio Teixeira

O Sonho dos Sonhos
Múcio Teixeira

Quanto mais lanço as vistas ao passado,
Mais sinto ter passado distraído,
Por tanto bem – tão mal compreendido,
Por tanto mal – tão bem recompensado!...

Em vão relanço o meu olhar cansado
Pelo sombrio espaço percorrido:
Andei tanto – em tão pouco... e já perdido
Vejo tudo o que vi, sem ter olhado.

E assim prossigo, sempre audaz e errante,
Vendo o que mais procuro mais distante,
Sem ter nada – de tudo que já tive...

Quanto mais lanço as vistas ao passado,
Mais julgo a vida – o sonho mal sonhado
De quem nem sonha que a sonhar se vive!...

terça-feira, 28 de junho de 2016

Soneto da Fidelidade - Vinícius de Morais

Soneto da Fidelidade
Vinícius de Morais

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que, mesmo em face do maior encanto,
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais triste me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive,
Quem sabe a solidão, fim de quem ama,

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure.