sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Elixir do Pajé - Bernardo Guimarães

O  ELIXIR  DO  PAJÉ

Bernardo Guimarães

Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?
-.-
Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!
-.-
Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?
-.-
Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co’a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando co’a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!
-.-
Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
-.-
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso pra teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pívias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a dextra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?
-.-
Caralho sem tensão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
linguiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.
-.-
Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.
-.-
Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias
a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co’engenho e arte.
-.-
Eis um santo elixir miraculoso
que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.
-.-
Um pajé sem tesão, um nigromante
das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio,
a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que já de encarquilhado,
de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
A meia-noite, à luz da lua nova,
co’os manitós falando em uma cova,
compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,
por suas próprias mãos às escondidas.
-.-
Esse velho pajé de pica mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!
-.-
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!
-.-
Se acaso ecoando
na mata sombria,
medonho se ouvia
o som do boré
dizendo: “Guerreiros,
ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama
feroz aimoré”,
- assim respondia
o velho pajé,
brandindo o caralho,
batendo co’o pé:
- Mas neste trabalho,
dizei, minha gente,
quem é mais valente,
mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo
com mais valentia?
Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
com mais gentileza?”
-.-
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea,
fodia o pajé.
-.-
Se a inúbia soando
por vales e outeiros,
à deusa sagrada
chamava os guerreiros,
de noite ou de dia,
ninguém jamais via
o velho pajé,
que sempre fodia
na taba na brenha,
no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé,
e o duro marzapo,
que sempre fodia,
qual rijo tacape
a nada cedia!
-.-
Vassoura terrível
dos cus indianos,
por anos e anos,
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou...
-.-
Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
-.-
Vinde, ó putas e donzelas,
vinde abrir as vossas pernas
ao meu tremendo marzapo,
que a todas, feias ou belas,
com caralhadas eternas
porei as cricas em trapo...
Graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje tem chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficará à-toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor...
-.-
Este elixir milagroso,
o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário
ao esquecido mazarpo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...
-.-
Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!
-.-
Sim, faze que este caralho,
por tua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado,
vencedor de cem mil conos...
E seja em todas as rodas,
d’hoje em diante respeitado
como herói de cem mil fodas,
por seus heróicos trabalhos,
eleito rei dos caralhos!


(“Poesia Erótica e Satírica”, Bernardo Guimarães, Imago, Rio de Janeiro, 1992.)


quinta-feira, 9 de julho de 2015

A Orgia dos Duendes - Bernardo Guimarães

A  ORGIA  DOS  DUENDES

Bernardo Guimarães

I

Meia-noite soou na floresta
No relógio de sino de pau;
E a velhinha, rainha da festa,
Se assentou sobre o grande jirau.
Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia.
Junto dele um vermelho diabo
Que saíra do antro das focas,
Pendurado num pau pelo rabo,
No borralho torrava pipocas.
Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo.
Getirana com todo o sossego
A caldeira da sopa adubava
Com o sangue de um velho morcego,
Que ali mesmo co’as unhas sangrava.
Mamangava frigia nas banhas
Que tirou do cachaço de um frade,
Adubado com pernas de aranhas,
Fresco lombo de um frei dom abade.
Vento sul sobiou na cumbuca,
Galo-preto na cinza espojou;
Por três vezes zumbiu a matruca,
No cupim o macuco piou.

E a rainha co’as mãos ressequidas
O sinal por três vezes foi dando,
A coorte das almas perdidas
Desta sorte ao batuque chamando:
"Vinde, ó filhas do oco do pau,
Lagartixas do rabo vermelho,
Vinde, vinde tocar marimbau,
Que hoje é festa de grande aparelho.
Raparigas do monte das cobras,
Que fazeis lá no fundo da brenha?
Do sepulcro trazei-me as abobras,
E do inferno os meus feixes de lenha.
Ide já procurar-me a bandurra,
Que me deu minha tia Marselha,
E que aos ventos da noite sussurra,
Pendurada no arco-da-velha.
Onde estás, que inda aqui não te vejo,
Esqueleto gamenho e gentil?
Eu quisera acordar-te c’um beijo
Lá no teu tenebroso covil.
Galo-preto da torre da morte,
Que te aninhas em leito de brasas,
Vem agora esquecer tua sorte,
Vem-me em torno arrastar tuas asas.
Sapo-inchado, que moras na cova
Onde a mão do defunto enterrei,
Tu não sabes que hoje é lua nova,
Que é o dia das danças da lei?
Tu também, ó gentil Crocodilo,
Não deplores o suco das uvas;
Vem beber excelente restilo
Que eu do pranto extraí das viúvas.
Lobisome, que fazes, meu bem,
Que não vens ao sagrado batuque?
Como tratas com tanto desdém,
Quem a c’roa te deu de grão-duque?"

II

Mil duendes dos antros saíram
Batucando e batendo matracas,
E mil bruxas uivando surgiram,
Cavalgando em compridas estacas.
Três diabos vestidos de roxo
Se assentaram aos pés da rainha,
E um deles, que tinha o pé coxo,
Começou a tocar campainha.
Campainha, que toca, é caveira
Com badalo de casco de burro,
Que no meio da selva agoureira
Vai fazendo medonho sussurro.
Capetinhas trepados nos galhos
Com o rabo enrolado no pau,
Uns agitam sonoros chocalhos,
Outros põem-se a tocar marimbau.
Crocodilo roncava no papo
Com ruído de grande fragor;
E na inchada barriga de um sapo
Esqueleto tocava tambor.
Da carcaça de um seco defunto
E das tripas de um velho barão,
De uma bruxa engenhosa o bestunto
Armou logo feroz rabecão.
Assentado nos pés da rainha
Lobisome batia a batuta
Co’a canela de um frade, que tinha
Inda um pouco de carne corruta.
Já ressoam timbales e rufos,
Ferve a dança do cateretê;
Taturana, batendo os adufos,
Sapateia cantando — o le rê!

Getirana, bruxinha tarasca,
Arranhando fanhosa bandurra,
Com tremenda embigada descasca
A barriga do velho Caturra.
O Caturra era um sapo papudo
Com dois chifres vermelhos na testa,
E era ele, a despeito de tudo,
O rapaz mais patusco da festa.
Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas a súcia berrando
— Viva, viva a Sra. condessa!...
E dançando em redor da fogueira
Vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:

III

TATURANA

Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.
Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.

GETIRANA

Por conselhos de um cônego abade
Dois maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.

Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.

GALO-PRETO

Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.
Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.

ESQUELETO

Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.
Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.

MULA-SEM-CABEÇA

Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.
Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.

Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.

CROCODILO

Eu fui papa; e aos meus inimigos
Para o inferno mandei c’um aceno;
E também por servir aos amigos
Té nas hóstias botava veneno.
De princesas cruéis e devassas
Fui na terra constante patrono;
Por gozar de seus mimos e graças
Opiei aos maridos sem sono.
Eu na terra vigário de Cristo,
Que nas mãos tinha a chave do céu,
Eis que um dia de um golpe imprevisto
Nos infernos caí de boléu.

LOBISOME

Eu fui rei, e aos vassalos fiéis
Por chalaça mandava enforcar;
E sabia por modos cruéis
As esposas e filhas roubar.
Do meu reino e de minhas cidades
O talento e a virtude enxotei;
De michelas, carrascos e frades,
Do meu trono os degraus rodeei.
Com o sangue e suor de meus povos
Diverti-me e criei esta pança,
Para enfim, urros dando e corcovos,
Vir ao demo servir de pitança.

RAINHA

Já no ventre materno fui boa;
Minha mãe, ao nascer, eu matei;
E a meu pai por herdar-lhe a coroa
Eu seu leito co’as mãos esganei.
Um irmão mais idoso que eu,
C’uma pedra amarrada ao pescoço,
Atirado às ocultas morreu
Afogado no fundo de um poço.
Em marido nenhum achei jeito;
Ao primeiro, o qual tinha ciúmes,
Uma noite co’as colchas do leito
Abafei para sempre os queixumes.
Ao segundo, da torre do paço
Despenhei por me ser desleal;
Ao terceiro por fim num abraço
Pelas costas cravei-lhe um punhal.
Entre a turba de meus servidores
Recrutei meus amantes de um dia;
Quem gozava meus régios favores
Nos abismos do mar se sumia.
No banquete infernal da luxúria
Quantos vasos aos lábios chegava,
Satisfeita aos desejos a fúria,
Sem piedade depois os quebrava.
Quem pratica proezas tamanhas
Cá não veio por fraca e mesquinha,
E merece por suas façanhas
Inda mesmo entre vós ser rainha.

IV

 Do batuque infernal, que não finda,
Turbilhona o fatal rodopio;
Mais veloz, mais veloz, mais ainda
Ferve a dança como um corrupio.
Mas eis que no mais quente da festa
Um rebenque estalando se ouviu
Galopando através da floresta
Magro espectro sinistro surgiu.
Hediondo esqueleto aos arrancos
Chocalhava nas abas da sela;
Era a Morte, que vinha de tranco
Amontada numa égua amarela.
O terrível rebenque zunindo
A nojenta canalha enxotava;
E à esquerda e à direita zurzindo
Com voz rouca desta arte bradava:
"Fora, fora! esqueletos poentos,
Lobisomes, e bruxas mirradas!
Para a cova esses ossos nojentos!
Para o inferno essas almas danadas!"
Um estouro rebenta nas selvas,
Que recendem com cheiro de enxofre;
E na terra por baixo das relvas
Toda a súcia sumiu-se de chofre.

V

E aos primeiros albores do dia
Nem ao menos se viam vestígios
Da nefanda, asquerosa folia,
Dessa noite de horrendos prodígios.
E nos ramos saltavam as aves
Gorjeando canoros queixumes,
E brincavam as auras suaves
Entre as flores colhendo perfumes.
E na sombra daquele arvoredo,
Que inda há pouco viu tantos horrores,
Passeando sozinha e sem medo
Linda virgem cismava de amores.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Num meio-dia... Fernando Pessoa

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
“Se é que ele as criou, do que duvido” –
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

.............................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

............................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Fernando Pessoa

terça-feira, 7 de julho de 2015

O Homem e a Mulher - Victor Hugo

O  HOMEM  E  A  MULHER

Victor Hugo

O homem é a mais elevada das criaturas,
a mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono,
para a mulher, um altar.
O trono exalta,
o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração.
O cérebro fabrica a luz,
o coração produz o Amor.
A Luz fecunda, o Amor ressuscita.
O homem é forte pela razão,
a mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence,
as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos;
a mulher é capaz de todos os martírios.
O heroísmo enobrece,
o martírio sublimiza.
O homem tem a supremacia,
a mulher, a preferência.
A supremacia significa a força,
a preferência representa o direito.
O homem é um gênio,
a mulher, um anjo.
O gênio é imensurável,
o anjo é indefinível.
A aspiração do homem é a suprema glória.
A aspiração da mulher é a virtude extrema.
A glória tudo engrandece,
a virtude tudo diviniza.
O homem é um código,
a mulher, um evangelho.
O código corrige,
o evangelho aperfeiçoa.
O homem pensa,
a mulher sonha.
Pensar é ter no crânio uma larva,
sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é um oceano,
a mulher é um lago.
O oceano tem a pérola que adorna,
o lago, a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa,
a mulher, o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço.
Cantar é conquistar a alma.
O homem é um templo,
a mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos,
ante o sacrário nos ajoelhamos.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra.
A mulher, onde começa o céu.


(Extraído do livro “O Matrimônio Perfeito”, de Samael Aun Weor, Editora Sol Nascente, São Paulo, 5ª edição, Páginas 112-113.)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Plena Nudez - Raimundo Corrêa

PLENA  NUDEZ

Raymundo Corrêa
(1860-1911)

Eu amo os gregos tipos de escultura:
pagãs nuas no mármore entalhadas,
não essas produções, que a estufa escura
das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero em pleno esplendor, viço e frescura,
os corpos nus, as linhas onduladas,
livres; da carne exuberante e pura
todas as saliências destacadas...

Não quero a Vênus opulenta e bela,
de luxuriantes formas, entrevê-la
da transparente túnica através;

quero vê-la sem peias, sem receios,
os braços nus, o dorso nu, os seios
nus... toda nua da cabeça aos pés!...


(“Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”, J. G. de Araújo Jorge, Volume I, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro, 3ª edição, página 357.)

domingo, 5 de julho de 2015

Pudica - Medeiros e Albuquerque

PUDICA

Medeiros e Albuquerque
(1867-1934)

Nua. Lambendo-lhe a epiderme lisa
por sob a qual o sangue tumultua,
caiu-lhe aos pés, em flocos, a camisa,
deixando-a nua... inteiramente nua...

O pé, que a alvura do banheiro pisa
mal os dedinhos róseos insinua
na água, que em largos círculos se frisa,
logo, fugindo lépido, recua...

Passa por todo o corpo um arrepio,
duros e brancos, hirtam-se de frio
seus dois peitinhos. Tímida, medrosa,

corre a mão sobre o ventre torneado...
Nisto, lembrando, acaso, o namorado,
toda se tinge de um rubor de rosa...


(“Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”, J. G. de Araújo Jorge, Volume I, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro, 3ª edição, página 281.)

sábado, 4 de julho de 2015

O Sonho - Jorge Rojas

O  SONHO

Jorge Rojas
(Poeta colombiano)
(Nascido em 1911)

Dormindo assim... (Se nua ela estivesse
sob os lençóis, mais pura não seria...)
Protege-a esse abandono que a oferece
na rede de seu sangue, que a vigia;

e o ritmo dos quadris – pura harmonia -,
e essa curva do seio que entumece
à agitação do sonho, e que parece
cheia de morno mel ou de ambrosia;

e essa polpa dos lábios que podia
dar nome a um fruto, sem falar, calada,
pois a própria doçura já o diria;

e essa sombra de uma asa, aprisionada,
que das coxas tão brancas voaria
se por acaso fosse despertada...

Tradução de J. G. de Araújo Jorge.


(“Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”, J. G. de Araújo Jorge, Volume III, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro, página 239.)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Escatologia Literária Tupiniquim - Marcos Nunes

ESCATOLOGIA LITERÁRIA TUPINIQUIM
(No sentido excrementício.)


Fiz agora uma pesquisa sumária na internet, na língua portuguesa, procurando alguns textos de poetas menos conhecidos, como Afonso de Carvalho, Otávio Augusto, e outros, e grande foi a minha decepção ao constatar que simplesmente NÃO EXISTE NADA!!!... O máximo que se encontra, e mesmo assim muito pouco, são simples referências. E o Brasil possui uma gigantesca plêiade de bons e excelentes poetas, do Recife a Porto Alegre, desde o século XIX, de parnasianos a modernistas, passando pelos simbolistas, cuja obra está COMPLETAMENTE ESQUECIDA. Neste imenso país, já totalmente informatizado e com uma invejável unidade linguística, não houve até agora NENHUMA INICIATIVA para resgatar virtualmente os textos em verso destes bardos DUPLAMENTE MORTOS. QUE COISA LAMENTÁVEL!!!... Nem mesmo instituições oficiais como ABL, BN e Fundações similares tiveram a preocupação de efetuar um levantamento de textos, por mais precário que seja. Exemplo: as mais de mil páginas da obra “Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro”, de Andrade Muricy, arrola centenas de poetas desta escola literária cuja produção é de alto nível. Quem se interessar em conhecer mais a fundo estes “VERSOS PERDIDOS”, dispõe apenas de uma única alternativa: comprar as obras em sebos virtuais, as que conseguir achar. Aliás, isto não acontece somente com autores nacionais. Tentei localizar o poema “Mensagem ao Diabo”, do irlandês Robert Burns, e a busca também DEU EM NADA!... Mas não é de admirar!... Como disse certa vez o escritor Antônio Calado, em entrevista à revista “Veja”: - “O Brasil é um país de MERDA”...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Delírio - Olabo Bilac

DELÍRIO

Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo.
Na minha, a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais ela dizia:
“Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo.”

Na inconsciência brutal do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos, mordia,
Fazendo-a delirar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda, quase em gritos
“Mais abaixo, meu bem”, num frenesi!

No seu ventre pousei a minha boca,
“Mais abaixo, meu bem”, disse ela, louca.
Moralistas – perdoai! Obedeci.

Moinho - Cartola

MOINHO

Cartola

Ainda é cedo, amor...
Mal começaste a conhecer a vida,
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar...

Preste atenção, querida...
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és...

Ouça-me bem, amor...
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó...

De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares, estás à beira do abismo,
Abismo que cavaste com teus pés...


         

      Esta letra extraordinária de uma música belíssima merece constar aqui entre as melhores peças literárias, especialmente por ter sido escrita e composta por um negro favelado carioca.