sexta-feira, 10 de junho de 2016

"Desfolhando" - J.G. de Araújo Jorge

"Desfolhando"
J.G. de Araújo Jorge

Essa boca, pequena, e assim vermelha,
Que ao botão de uma rosa se assemelha,
- Quanta vez provocava os meus desejos
Desabrochando em flor entre os meus beijos...

Essa boca, pequena e mentirosa,
Que diz, tanta mentira cor-de-rosa,
- Era a taça de amor onde eu saciava
Toda a ansiedade da minha alma escrava ...

Beijando-a, compreendia que eras minha...
Meu amor transformava-te em rainha,
Teu amor me fazia mais que um rei...

Agora, tu fugiste... E eu sofro, quando
Vejo um outro em teus lábios desfolhando
A mesma rosa que eu desabrochei!...

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A um Pintassilgo - Belmiro Braga

A um Pintassilgo
Belmiro Braga

Por que vens tu cantar, ó passarinho,
Por entre as folhas úmidas de orvalho,
No flóreo jasmineiro meu vizinho
E mesmo em frente à mesa onde eu trabalho?

Por que não vais vigiar teu fofo ninho
(Não te zangues comigo, eu não te ralho)
A baloiçar à margem do caminho,
Qual rosa escura num recurvo galho?

Tu tens em que cuidar; por isso, voa
E deixa-me sozinho... Esse teu canto,
Embora sendo alegre, me magoa...

Não te demoras, vai! Deixa-me agora,
Que o teu gorjeio me faz mal, porquanto
Nunca se canta ao lado de quem chora...

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Risália - Belmiro Braga

Risália
Belmiro Braga

Se ouvires, a sonhar, uns vãos rumores,
Não são as aves festejando o dia:
- São os últimos gritos que te envia
Meu triste coração, morto de amores...

Se sentires uns tépidos olores,
Não penses que é o rosal que te inebria:
- É a minha alma nas ânsias da agonia
Que, só por te beijar, se muda em flores...

Se vires baloiçar as níveas gazas
Do docel de teu leito, não te afoites,
Nem te assustes, querida! São meus zelos

Que vão, de leve, sacudindo as asas,
Carinhosos, beijar, todas as noites,
Teus olhos, tua fronte e teus cabelos...

terça-feira, 7 de junho de 2016

Quarenta Anos - Mário de Andrade

Quarenta Anos
(Mário de Andrade)

A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas, sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Ó sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Artista - Mário de Andrade

Artista
Mário de Andrade

O meu desejo é ser pintor – Leonardo,
Cujo ideal em piedades se acrisola;
Fazendo abrir-se ao mundo a ampla corola
Do sonho ilustre que em meu peito guardo...

Meu anseio é, trazendo ao fundo pardo
Da vida, a cor da veneziana escola,
Dar tons de rosa e de ouro, por esmola,
E quanto houver de penedia ou cardo.

Quando encontrar o manancial das tintas
E os pincéis exaltados com que pintas,
Veronese! teus quadros e teus frisos,

Irei morar onde as Desgraças moram:
E viverei de colorir sorrisos
Nos lábios dos que imprecam ou que choram!

domingo, 5 de junho de 2016

Na minha rua há um menino doente - Mário Quintana

Na minha rua há um menino doente
Mário Quintana

Na minha rua há um menino doente,
Enquanto os outros partem para a escola;
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve, também, o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola
E, pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento, que ele tem, se evola.

Mas, nesta rua, há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe...

Ele trabalha silenciosamente...
E está compondo este soneto agora
Para a alma boa do menino doente...

sábado, 4 de junho de 2016

Eu faço versos - Mário Quintana

Eu faço versos
Mário Quintana

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos
A entrada é livre para os conhecidos...
Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos...
Olhai o coração que, entre gemidos,
Giro na ponta dos meus dedos brancos.

“Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!”
- Protesta a clara voz das Bem-Amadas –
“Que tédio!” – o coro dos Amigos clama.

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”
- Digo... e retorço as pobres mãos cansadas:
“Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!”

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Morrer... Dormir... - Francisco Otaviano

Morrer... Dormir...
Francisco Otaviano

Morrer... dormir... não mais! Termina a vida
E com ela terminam nossas dores:
Um punhado de terra, algumas flores,
E às vezes uma lágrima fingida!

Sim! Minha morte não será sentida;
Não deixo amigos, e nem tive amores,
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é pobre no mundo. Que me importa
Que ele amanhã se esbroe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe...
Vem, pois, ó Morte, ao nada me transporta!
Morrer... dormir... talvez sonhar... quem sabe?

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ingratidão - Raul de Leoni

Ingratidão
Raul de Leoni

Nunca mais me esqueci!... Eu era criança
E, em meu velho quintal, ao sol-nascente
Plantei com minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e, aos poucos suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

quarta-feira, 1 de junho de 2016

História Antiga - Raul de Leoni

História Antiga
Raul de Leoni

No meu grande otimismo de inocente
Eu nunca soube por que foi... Um dia,
Ela me olhou indiferentemente;
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa...

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...