terça-feira, 7 de junho de 2016

Quarenta Anos - Mário de Andrade

Quarenta Anos
(Mário de Andrade)

A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas, sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Ó sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Artista - Mário de Andrade

Artista
Mário de Andrade

O meu desejo é ser pintor – Leonardo,
Cujo ideal em piedades se acrisola;
Fazendo abrir-se ao mundo a ampla corola
Do sonho ilustre que em meu peito guardo...

Meu anseio é, trazendo ao fundo pardo
Da vida, a cor da veneziana escola,
Dar tons de rosa e de ouro, por esmola,
E quanto houver de penedia ou cardo.

Quando encontrar o manancial das tintas
E os pincéis exaltados com que pintas,
Veronese! teus quadros e teus frisos,

Irei morar onde as Desgraças moram:
E viverei de colorir sorrisos
Nos lábios dos que imprecam ou que choram!

domingo, 5 de junho de 2016

Na minha rua há um menino doente - Mário Quintana

Na minha rua há um menino doente
Mário Quintana

Na minha rua há um menino doente,
Enquanto os outros partem para a escola;
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve, também, o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola
E, pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento, que ele tem, se evola.

Mas, nesta rua, há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe...

Ele trabalha silenciosamente...
E está compondo este soneto agora
Para a alma boa do menino doente...

sábado, 4 de junho de 2016

Eu faço versos - Mário Quintana

Eu faço versos
Mário Quintana

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos
A entrada é livre para os conhecidos...
Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos...
Olhai o coração que, entre gemidos,
Giro na ponta dos meus dedos brancos.

“Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!”
- Protesta a clara voz das Bem-Amadas –
“Que tédio!” – o coro dos Amigos clama.

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”
- Digo... e retorço as pobres mãos cansadas:
“Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!”

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Morrer... Dormir... - Francisco Otaviano

Morrer... Dormir...
Francisco Otaviano

Morrer... dormir... não mais! Termina a vida
E com ela terminam nossas dores:
Um punhado de terra, algumas flores,
E às vezes uma lágrima fingida!

Sim! Minha morte não será sentida;
Não deixo amigos, e nem tive amores,
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é pobre no mundo. Que me importa
Que ele amanhã se esbroe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe...
Vem, pois, ó Morte, ao nada me transporta!
Morrer... dormir... talvez sonhar... quem sabe?

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ingratidão - Raul de Leoni

Ingratidão
Raul de Leoni

Nunca mais me esqueci!... Eu era criança
E, em meu velho quintal, ao sol-nascente
Plantei com minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e, aos poucos suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

quarta-feira, 1 de junho de 2016

História Antiga - Raul de Leoni

História Antiga
Raul de Leoni

No meu grande otimismo de inocente
Eu nunca soube por que foi... Um dia,
Ela me olhou indiferentemente;
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa...

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...

terça-feira, 31 de maio de 2016

Visita à Casa Paterna - Luiz Guimarães Júnior

Visita à Casa Paterna
Luiz Guimarães Júnior

Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma, talvez, do amor materno,
Tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta sala... (Ó se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
- Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade...

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Felicidade - Guilherme de Almeira

Felicidade
Guilherme de Almeida

Ela veio bater à minha porta
E falou-me, a sorrir, subindo a escada:
- “Bom dia, árvore velha e desfolhada!”
E eu respondi: - “Bom dia, folha morta!”

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando, pouco importa!)
Houve canções na ramaria torta
E houve bandos de noivos pela estrada...

Então chamou-me e disse: - “Vou-me embora!
Sou a felicidade... Vive agora
Da lembrança do muito que te fiz!”

E foi assim que, em plena primavera,
Só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!

domingo, 29 de maio de 2016

Longe da Vista - Guilherme de Almeida

Longe da Vista
Guilherme de Almeida

Vou partir, vais ficar. “Longe da vista,
Longe do coração” – diz o ditado.
Basta, porém, que o nosso amor exista,
Para que eu parta e fiques sem cuidado.

Dentro em mim mesmo, o coração egoísta,
Quanto mais longe, mais te quer ao lado;
Tanto mais te ama, quanto mais te avista
E, antes de ver-te, já te havia amado.

Vou partir. Para longe? Para perto?
- Não sei: longe de ti tudo é deserto
E todas as distâncias são iguais.

Como eu quisera que, na despedida,
Quando se unissem nossas mãos, querida,
Nunca pudessem desunir-se mais!