terça-feira, 31 de maio de 2016

Visita à Casa Paterna - Luiz Guimarães Júnior

Visita à Casa Paterna
Luiz Guimarães Júnior

Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma, talvez, do amor materno,
Tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta sala... (Ó se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
- Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade...

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Felicidade - Guilherme de Almeira

Felicidade
Guilherme de Almeida

Ela veio bater à minha porta
E falou-me, a sorrir, subindo a escada:
- “Bom dia, árvore velha e desfolhada!”
E eu respondi: - “Bom dia, folha morta!”

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando, pouco importa!)
Houve canções na ramaria torta
E houve bandos de noivos pela estrada...

Então chamou-me e disse: - “Vou-me embora!
Sou a felicidade... Vive agora
Da lembrança do muito que te fiz!”

E foi assim que, em plena primavera,
Só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!

domingo, 29 de maio de 2016

Longe da Vista - Guilherme de Almeida

Longe da Vista
Guilherme de Almeida

Vou partir, vais ficar. “Longe da vista,
Longe do coração” – diz o ditado.
Basta, porém, que o nosso amor exista,
Para que eu parta e fiques sem cuidado.

Dentro em mim mesmo, o coração egoísta,
Quanto mais longe, mais te quer ao lado;
Tanto mais te ama, quanto mais te avista
E, antes de ver-te, já te havia amado.

Vou partir. Para longe? Para perto?
- Não sei: longe de ti tudo é deserto
E todas as distâncias são iguais.

Como eu quisera que, na despedida,
Quando se unissem nossas mãos, querida,
Nunca pudessem desunir-se mais!

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Acrobata da Dor - Cruz e Sousa

Acrobata da Dor
Cruz e Sousa

Gargalha, ri, num riso de tormento,
Como um palhaço que, desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

De gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita guizos e, convulsionado,
Salta, gavroche, salta, “clown”, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas de aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri, Coração, tristíssimo palhaço!

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Dulce - Castro Alves

Dulce
Castro Alves

Se houvesse ainda talismã bendito
Que desse ao pântano – a corrente pura,
Musgo – ao rochedo, festa – à sepultura,
Das águias negras – harmonia ao grito...

Se alguém pudesse ao infeliz precito
Dar lugar no banquete da ventura...
E trocar-lhe o velar da insônia escura
No poema dos beijos – infinito...

Certo... serias tu, donzela casta,
Quem me tomasse em meio do Calvário
A cruz de angústia que o meu ser arrasta!...

Mas se tudo recusa-me o fadário,
Na hora de expirar, ó Dulce, basta
Morrer beijando a cruz de teu rosário!...

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Mal Secreto - Raimundo Correia

Mal Secreto
Raimundo Correia

Se a cólera que espuma, a dor que mora
Nalma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

terça-feira, 24 de maio de 2016

O Acendedor de Lampiões - Jorge de Lima

O Acendedor de Lampiões
Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Esse mesmo que vem, invariavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua,
Quando a sombra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões acende e continua
Outros mais a acender, imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita!
Ele, que doura a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religião, amor, felicidade,
Como esse acendedor de lampiões de rua!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O Enterro da Cigarra - Olegário Mariano

O Enterro da Cigarra
Olegário Mariano

As formigas levavam-na... Chovia...
Era o fim... Triste outono fumarento!...
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento
Era a cigarra de maior talento
Mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas...
Que tristeza nas folhas... Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!...

Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a Natureza
Tuas irmãs e tua mãe cantavam...

domingo, 22 de maio de 2016

Maldição - Olavo Bilac

Maldição
Olavo Bilac

Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
- Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha alma se abrirá como um vulcão.

E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão...

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que me fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...

sábado, 21 de maio de 2016

Ouvir Estrelas - Olavo Bilac

Ouvir Estrelas
Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: - “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi. – “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.