domingo, 17 de janeiro de 2016

Pé-Frio - Roberto Medeiros

Pé-Frio
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

José Tatão de Assis – por apelido
Pé-Frio, mal casado, brasileiro,
De domicílio incerto e não sabido
E com a profissão de bilheteiro.

O Zé, sem sorte, magro, desnutrido,
Vendia a sorte grande e sem dinheiro
Era insistente e sempre repelido
Na fome de vender bilhete inteiro.

Assim passava a vida... até que um dia,
Na última extração da loteria,
Pé-Frio foi na rua atropelado...

E o azar pregou-lhe a peça derradeira,
Pois em seu bolso, pela vez primeira,
Encontrou-se um bilhete PRE-MI-A-DO.

sábado, 16 de janeiro de 2016

“Maria-Louca” - Roberto Medeiros

“Maria-Louca”
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

Pobre Maria – dizem que ela é louca –
Desvive por aí, pela cidade,
Trazendo sempre maldições na boca,
Retrata ao vivo a filha da orfandade.

Esquálida, de voz um tanto rouca,
Era um comício contra a sociedade.
Repartindo a comida que era pouca,
Até aos cães fazia caridade.

Um dia, em nome dos costumes, penso,
Foi presa pelos homens de bom senso,
Esquecidos de sua enfermidade...

Maria, resmungando maldições,
Julgada louca, tem suas razões

De achar mais louca a própria Sociedade.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Amália - Roberto Medeiros

Amália
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora)

Amália veio só de sua aldeia
Para a cidade, na esperança vã
De conseguir na fábrica de meia
Um lugar de aprendiz de tecelã.

Tinha quinze anos... e não era feia,
Tinha no amor de Onofre um talismã,
Dois vestidinhos e a cabeça cheia
De sonhos e de crenças no amanhã.

Mas a cidade-grande foi madrasta
Para a inocência da menina casta
Que nos desvãos da rua agora sofre...

Sem nada, sem ninguém, desiludida,
Não quer voltar, porque perdeu na vida
O lírio que guardava para Onofre.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Pária - Roberto Medeiros

Pária
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

Brincávamos de Rei e de Rainha
No castelo do amor que nos prendia,
Erguido por nós dois, dia por dia,
E certos de que nada nos detinha.

Aquele reino senhoril continha
Pompas sutis de nobre cortesia,
Enchendo de esplendor e de magia
O teu orgulho e a vaidade minha.

Mas eis que um dia – é tradição da história -,
Inconformada em repartir a glória,
Soberana reinaste autoritária...

Gladiador plebeu, venci, fui Rei.
Por ti, por teu amor, porque te amei,
Volto vencido à condição de pária.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Bichobrás - Roberto Medeir

Bichobrás
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

Eméritos Julgadores:

Para ruir ato lesivo
Ao patrimônio afetivo,
Histórico e cultural,
Como qualquer cidadão
Proponho a presente ação
Neste egrégio Tribunal.

Tem fomento tal matéria,
Polêmica, pouco séria
Que a “Ordem e Progresso” estagna,
No artigo 5º, e tem vez,
No inciso setenta e três,
Nos termos da Carta Magna.

Vamos ao fato e ao direito,
O que faço com respeito
A Drumond, o tal Barão,
Que no tapa e por capricho
Criou o “Jogo do Bicho”
Sem nenhuma inspiração.

Oito bichos estrangeiros
Peitaram os brasileiros
Sem sequer um comentário:
Águia, avestruz, tigre, leão,
Elefante, urso, pavão,
Camelo – que dromedário!

À burrice ele se inclina
Ao ponto que discrimina
E uma só raça destaca,
Sem ver que aos bichos humilha
Quando contempla a família
De alma vacum: touro e vaca.

E instaura um concubinato:
Entre a cabra e “aquele” gato,
Da “tal” águia com o galo,
Entre a avestruz e o elefante,
Do veado com o cavalo,
Entre o urso e outro mutante!

A gente humilde que sabe,
Não quer que o jogo se acabe
Pois faz nele a sua fé...
Quem por mulher tem rabicho,
Em vez de “matar o bicho”,
Mantém o “bicho de pé”.

Um jogo alegre, risonho,
Que se guia em cada sonho
De milhões de apostadores...
Sem limite e sem demora,
O seu prêmio é pago na hora
Pelos próprios corretores.

A banca da bicharada
Uma vez estatizada
Não seria um ato cômico.
Privatizada, é um risco,
Seu dinheiro fica arisco
Como no Banco Econômico.

Se é certo que nosso povo
Troca o velho pelo novo
Porque bem sabe o que faz,
Requer que o “jogo” afinal,
Seja também estatal
E se chame “Bichobrás”.

Tal qual as que têm escudo:
- Super-Sena, Papa-Tudo,
Raspadinha, Loto, Quina,
As corridas de cavalos,
O Bingo e demais badalos
Que o Governo já domina.

Nas “Lotecas” oficiais
Nunca surgem policiais
“Protegendo” ou “criando” vítimas.
E nem tão pouco políticos,
Anões ou apenas raquíticos,
Com propostas ilegítimas.

Se os jogos estatizados
São por números marcados
Do mesmo modo, em cartão,
Por que somente o “zoológico”,
Por ato de força e ilógico,
Tem que ser contravenção?!

Talvez – quem sabe? – o Congresso
Ponha fim neste processo
Se tiver conhecimento...
Se assim fiz “foi porque fi-lo”!
Com as cautelas de estilo,
Espero deferimento.

(O Bicho é nosso
ou
Opções abichescadas)

01 – ABELHA
Palpite é como zumbido
Que quando bate na orelha,
Enche tanto o nosso ouvido
Que a gente ferra na ABELHA.

02 – BODE
Se o bicheiro, por capricho
Banca até o que não pode,
Se um cabra acerta no bicho
Sempre acaba dando BODE.

03 – BURRO
De segunda-feira à sexta
Certo “jegue” dava murro,
Mas, deixando de ser besta
Lavou a égua no BURRO.

04 – BORBOLETA
Sua sorte não renegue
Quando a coisa fica preta,
Sua esperança carregue
Nas asas da BORBOLETA.

05 – CACHORRO
Se o seu mundo é um mundo-cão
Procure logo um socorro
Anotando em seu talão
A sua fé no CACHORRO.

06 – COBRA
Quando a vida te envenena
Em rastejante manobra,
Dê um bote na centena
Na cabeça, acerte a COBRA.

07 – CARRAPATO
Em casa, se pesa a barra
E o credor é muito chato,
Quem tem garra sempre agarra
No grupo do CARRAPATO.

08 – CORUJA
Das fases de mau agouro
Não há, amigo, quem fuja...
O mapa da mina de ouro
Quem de... cifra é a CORUJA.

09 – GAMBÁ
De cara cheia, sem norte,
Mais pra lá do que pra cá,
Quem vai no cheiro da sorte
Sempre acerta no GAMBÁ.

10 – GATO
Sem cigarro, sem dinheiro
E sem angu no seu prato,
Faça um vale no bicheiro
E mande brasa no GATO.

11 – GALO
Faltando milho e algo mais
E estando a vida a engasgá-lo,
Ponha todos seus reais
No passe duplo do GALO.

12 – LAGARTIXA
Paredes acima e abaixo
Ao ver a sorte tão “mixa”
Acerte, dando de macho,
Na mosca da LAGARTIXA.

13 – MACACO
Na miséria que machuca
Para sair do buraco,
Quem mete a mão em cumbuca
Tira a pedra do MACACO.

14 – MINHOCA
No mar da vida, sem isca,
Quem a sorte não convoca,
Mal pega o salário e arrisca
Num dos lados da MINHOCA.

15 – ONÇA
Quem nunca jogou no bicho,
Nem entende a geringonça,
Vendo a sogra, por capricho,
Sem dó, carrega na ONÇA.

16 – PAPAGAIO
Amigo, para ser franco,
Só pode pagar o raio
Do “papagaio” no Banco,
Quem joga no PAPAGAIO.

17 – PIOLHO
Cuca fundida, zarolho,
Amigo, não se aborreça...
Jogue todo o seu restolho
Que dá PIOLHO na cabeça.

18 – PIRANHA
Depois de tanta façanha
Que a sorte não mais deplore:
Coma o rabo da PIRANHA
Antes que ela te devore.

19 – PULGA
Esta verdade patente
No jogo não se divulga:
Se a PULGA pica na gente
A gente ferra na PULGA.

20 – PERU
Não viva só na dureza
Quebre, amigo, esse tabu:
Se um dia tiver fraqueza
Se assegure no PERU.

21 – SAPO
Se o seu dinheiro se acaba,
Se a vida está por um trapo,
Faça jus àquela “baba”
Mesmo que seja de SAPO.

22 – SABIÁ
Um só palpite fará
Que a tristeza desintegre:
Sabia que o SABIÁ
Emite uma “nota” alegre?

23 – URUBU
Se exorcisas um vodu
Em luta de vida e morte,
Mande chumbo no URUBU,
Senão pousa em tua sorte.

24 – VAGALUME
Bem mais que o veado capricha
Outro “boiola” de peso...
O VAGALUME é uma bicha
Que já traz o rabo aceso.

25 – VACA
Esta “fezinha” aproveite
Para pôr um fim na inhaca,
Encha seu balde de leite
Nas gordas tetas da VACA.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Mulheraça - A Graça da Cabaça de Cachaça - Roberto Medeiros

Mulheraça
A Graça da Cabaça de Cachaça
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

Se um dia você,
Talvez por frescura,
Talvez por chiquê,
Quebrar nossa jura,
Eu juro, meu anjo,
(sem dar de cascata)
Que, então, eu arranjo
(sem essa de data),
Alguém pra ficar
Comigo, na vida,
Aqui neste bar,
Tomando batida.

Que chame Asponésia,
Que beba cerveja,
Que tenha amnésia,
Mulher que me seja,
Parceira de vida,
E tome o meu trago,
Em Boston nascida,
Quem sabe em Chicago.

Que espante o quebranto
Debaixo do pano...
- De Espírito Santo
E corpo profano,
Que tenha ela alguns
Cacoetes fajutos...
- Lugares-comuns
E tais atributos:

Cabeça-de-ponte; Cabelos-de-milho;
A testa-de-ferro; Os olhos-de-sogra;
A boca-da-noite; Sorriso-amarelo;
A língua-de-trapo; A Voz-do-Brasil;
O papo-furado; Os dentes-dos-alhos;
Orelha-de-livro; Pescoço-de-frango;
Os braços-do-mar; Sovaco-de-cobra;
Os punhos-de-renda; O Dedo-de-Deus;
A unha-de-gato; O peito-de-pomba;
Maminha-de-alcatra; O leite-de-onça;
As costas-da-África; Costelas-de-estrada;
Barriga-de-imprensa; Bacia-das-almas;
Umbigo-cajú; O rabo-de-galo;
Bum-bum-de-ninfeta; Os Altos-dos-Passos;
O Morro-do-Cristo; Buraco-do-Olavo;
As curvas-de-nível; A tal “Cochabamba”;
Canela-de-cheiro; O pé-de-coelho;
As regras-de-três; ... Paciência-de-Jó.

Se acaso se der
Qualquer caretice,
Lhe troco, mulher,
(que importa a doidice)
Por esse robô
De minha cachola,
Um sábio pivô
Que não faz marola.

Se entende o recado
E ainda está nessa,
Bichinho empanado,
Que venha depressa
Por via Correio,
Por via Embratel,
Ou no saco cheio
Do velho Noel.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Casulo - Roberto Medeiros

Casulo
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

Eu “peço altos”... Hoje basta!
A vida injusta, madrasta,
Que tenta quebrar minha asa...
Já que não sei mais sorrir,
Volto a fim de descobrir
Um atalho para casa.

Lá, só lá, reina o sossego,
O carinho, o aconchego,
O lugar do açúcar-cande...
Onde procria a ternura,
Onde a água é fresca e pura,
Onde não tem olho-grande.

“Errando” pelo deserto,
Quando a esperança está perto,
Eu sinto bem lá no fundo
Que meu lar é meu oásis,
Onde faço as minhas pazes
Com a vida, com o mundo.

A casa, um caso de amor,
Sob a bênção superior...
É lá que habita a vitória,
Que mora a gente da gente,
Ascendente e descendente,
A estória da nossa história.

Doce casa, humilde embora,
É tudo que a gente adora,
De nossa nau, o farol...
Onde não se está a sós,
Portas se abrem para nós
E a janela acende o sol.

Minhas músicas diletas,
Minhas obras prediletas,
A cama de lindos sonhos,
O sofá, o quadro, o espelho,
O bom e sábio conselho
E os meus amigos risonhos.

Mesa-posta, roupa-limpa,
Onde o bem-querer garimpa
Jazidas que nem calculo...
Em paz, de bem com a vida,
Me reciclo para a lida
Na seda do meu casulo.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Rapsódia - Roberto Medeiros

Rapsódia
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

Com minha alma transbordando
De ansiedades e ternura,
Como a luz fui penetrando
Pelas frinchas da moldura
Daquele reino de opala,
Nesta aquarela chinesa,
Onde devia encontrá-la
Desperdiçando beleza!...

O sol rendilhando o chão
Abria leques nas sombras
Diluindo a escuridão
Preguiçosa nas alfombras...
Raios de luz qual palhetas
Neste painel que deslumbra,
Projetavam silhuetas
Afugentando a penumbra!...

Envolta em fluida neblina
Que revestia as veredas,
Minha alma ouvia em surdina,
Como sussurros de sedas,
A sinfonia dos ventos,
Os acordes das aragens
Perfumando estes momentos
Com o aroma das folhagens!...

Coloridos matinais,
Gorgeios e murmurinhos,
Doces notas musicais
Da orquestra de passarinhos,
Naquele sonoro estúdio,
Enternecido eu ouvia,
Suavíssimo prelúdio
Em homenagem ao dia!...

Vi o bailado das folhas
Que em provocantes acintes
E caprichosas escolhas
Sofisticavam requintes,
Como se fossem ciganas
Rodopiavam felizes
E teciam filigranas
No arabesco das raízes...

Formando um leito de plumas
Coberto por nuvens brandas,
Tecido em fio de espumas,
Debruado por guirlandas...
Macia alcova de fada
Feita por anjos travessos,
Para as delícias da amada,
Com lascivos adereços...

Carpindo loas aflitas
Em redondilhas sonoras,
Pensava cousas não ditas
Na amarga fuga das horas,
À espera que ela surgisse
Aplacando os meus desejos,
Com sua graça e meiguice,
Com seus carinhos e beijos!...

Na deslumbrante aquarela
Por mãos divinas pintada,
Ela surgiu bem mais bela
Que as nuances da alvorada,
Vaporizando os martírios
Destas horas tão ansiosas,
Com a fragrância dos lírios,
Com o perfume das rosas!...

Era a manhã que nascia
Gêmea da própria manhã
Que invejosa se escondia
Ante a beleza da irmã...
Era um poema de luz
Refletindo em rosicler,
Um sorriso que seduz,
Os encantos de mulher!...

No murmúrio de quem ousa
Pontilhar as reticências,
Seu olhar no meu repousa
Pejado de confidências...
Lindas mensagens cifradas,
Resumo de nossas vidas:
Perguntas não formuladas,
Respostas não proferidas!...

Inesquecíveis segundos
Que nos valeram por anos
Cristalizando profundos,
Nossos anseios humanos
Que o tempo nunca desmente
Embora passe veloz,
Testemunhando silente
O que existiu entre nós...

Enquanto a manhã vibrava
Na adolescência do dia,
A noite em minha alma escrava
Soturnamente descia
Na porcelana do ocaso
Do meu sonho interior,
Que contrafeito extravaso
Em pesadelos de dor...

Porque vejo com tristeza,
Maculando esta obra-prima,
Serem mais que a natureza
E o próprio amor que sublima,
Os preconceitos e normas
Que a praxe determinou
Na indumentária das formas
Que a mente humana criou!...

E a natureza se acalma,
Presságio de despedida,
Eclipse na minha alma,
Pôr-do-sol de minha vida...
Adeus meu reino de opala,
Berço de instantes risonhos,
Adeus derradeira escala,
Campo-santo dos meus sonhos!...

sábado, 9 de janeiro de 2016

Id ao Ego - Roberto Medeiros

Id ao Ego
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

Certa amiga muito gente,
Até quando eu a conheço,
Tem um “quê” de diferente
Que nos vira pelo avesso.
Variações e nuances mis
Na esteira do seu embalo,
Detalhes, os mais sutis,
Como estes que assinalo:

Ela não pensa, matuta;
Ela não olha, ela espia;
Ela não joga, disputa;
Não começa, principia;
Ela não teima, ela empaca;
Ela não benze, faz figa;
Ela não percebe, saca;
Ela não dorme, desliga;
Ela não anda, faz “cooper”;
Ela não corre, dispara;
Ela não é forte, é super;
Ela não ajuda, ampara;
Não é irmã, é maninha;
Ela não discute, ensina;
Ela não ouve, adivinha;
Ela não vê, imagina;
Ela não se apressa, urge;
Não desperta, ela amanhece;
Ela não chega, ela surge;
Não se vai, desaparece.

E assim fez a tal amiga
Com seu jeito irreverente...
Quanto mais a gente briga,
Tanto mais se faz presente.
Para ela se precaver
Vai aqui este recado;
O seu modelo de ser
Já foi por nós adotado:

- Não despede, ela exorciza;
Não é orgulho, é vaidade;
Não encanta, hipnotiza;
Não é lembrança, é saudade.

O QUE TU ÉS PARA MIM:
- Pulsar do meu coração,
O meu tintim por tintim,
Minha mão na contra-mão,
A santa do meu altar,
A rima do meu poema,
O bem do meu mal-estar,
Solução do meu problema.

Coringa do meu baralho,
Antena do meu ouvido,
A folga do meu trabalho,
O meu drinque preferido,
Estrela da minha noite,
Uva da minha parreira,
Vigília do meu pernoite,
Meu livro de cabeceira.

O vento do meu moinho,
A seqüência do meu hiato,
Roteiro do meu caminho,
Perfume do meu olfato,
Gol de placa do meu craque,
Corda da minha caçamba,
Da minha escola, o destaque,
A cadência do meu samba.

O Gelol da minha dor,
A razão da minha fé,
Meu beijo de beija-flor,
A pinga do meu coité,
Sauna da minha ressaca,
Meu pavê de chocolate,
Bainha da minha faca,
Vedete de minha boate.

Minha ponte de safena,
A festa do meu Fla-Flu,
Meu prêmio da Supersena,
O meu A – E – I – O – U,
Meu talismã, meu patuá,
Minha rosa, cor-de-rosa,
Meu circo, meu mafuá,
A minha pedra preciosa.

Alegria do meu tédio,
Meu voto majoritário,
A bula do meu remédio,
Segredo do meu diário,
Apelo dos meus apelos,
O fim das minhas escolhas,
Sonho dos meus pesadelos,
Meu trevo de quatro folhas.

Minhas férias, meu feriado,
Minha “potranca” gaúcha,
Meu búzios, meu São Conrado,
Minha “paquita” da Xuxa,
Meu pé de jaboticaba,
Minha “musa” de Ipanema,
O meu licor de catuaba,
Minha “Afrodite”, Iracema.

Minha quebra de tabu,
O fecho do meu soneto,
Minha foz, Foz de Iguaçu,
O meu ouro, Ouro Preto,
Meu gomo de mexerica,
Água azul da minha fonte,
Minha rica, Vila-Rica.
Meu belo, Belo Horizonte.

Aplauso dos meus fracassos,
A moto do meu enduro,
Descanso dos meus cansaços,
Meu doce Porto-Seguro,
Nota alegre do meu hino,
Os salmos do meu missal,
Bússola do meu destino,
Minha bola de cristal.

O sol do meu céu aberto,
O refrão dos meus cuidados,
Miragem do meu deserto,
O perdão dos meus pecados,
Alvo dos meus pensamentos,
As cores do meu pincel,
Calmaria em meus tormentos,
A minha Lua-de-mel.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Como é bom ser bom - Roberto Medeiros

Como é bom ser bom
Roberto Medeiros
(Juiz de Fora – MG)

Ser justo, ser indulgente,
Ter a bondade por dom,
Purifica a alma da gente,
Mas, ah!... como é bom ser bom!...

É ser humano e divino,
É ser por todos benquisto,
É num gesto pequenino
Ter a grandeza de Cristo.

Pela riqueza que passa
Nunca a bondade se mede,
Que, dentre as graças, é a graça
Mais rica que Deus concede.

Ser bom não nos custa nada,
Mesmo que se escute o som
De perversa gargalhada...
Mas, ah!... como é bom ser bom!...

Bom, assim, como a doçura
De um sentimento fraterno;
Bom como a paz, a ternura,
Como o carinho materno.

Ser bom qual suave cantiga,
Qual sorriso de criança;
Ser bom como carta amiga
Reverdecendo esperança.

Ser bom, como o mitigar
Nossa sede num oásis;
Ou como a gente brigar
E depois fazer as pazes.

Igual às coisas mais lindas,
Bom como um favo de mel,
O mesmo que as boas-vindas,
Vindas com Papai Noel.

Como o beijo que se ganha,
Como jura em doce tom,
Como taça de champanha,
Bom, assim, como o Ano Bom.

Ser bom, e simples, e calmo,
Como as pétalas da flor,
Como a harmonia de um Salmo,
Como as bênçãos do Senhor.

O ser bom é faculdade
Que se reflete num bis:
- Só praticando a bondade
É que se sente feliz.