sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Do partido do diabo - Aldous Huxley

      “O lugar do poeta, parece-me, é entre os Srs. Hydes da natureza humana. Ele deve ser, como observou Blake a respeito de Milton, ‘do partido do diabo sem o saber’ – ou, preferivelmente, com a plena consciência de ser do partido do diabo. Já há tantos anjos intelectuais e morais, batalhando pelo racionalismo, pela boa cidadania e pela espiritualidade pura; há os tantos e tão eminentes, loquazes e autoritários! O pobre diabo que está no homem necessita de todo o apoio e de toda defesa que possa arranjar. E o artista é que é seu defensor natural. Quando um artista deserta e se passa para o lado dos anjos, dá-se a mais odiosa das traições. Tolstoy, por exemplo, como é imperdoável! Tolstoy, o Sr. Hyde perfeito, a mais completa encarnação, como jamais existiu outra, da vida instintiva, não-moral e não-intelectual – Tolstoy, que traiu sua própria natureza, traiu também a arte e traiu a vida em si mesma, para lutar contra o partido do diabo de suas antigas simpatias, sob o pálio do Dr. Jesus-Jekyll.”

      (“Satânicos e Visionários”, de Aldous Huxley, Companhia Editora Americana, Rio de Janeiro, 1975, Páginas 83-84.)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Lúcifer da cabala... - Eliphas Levi

      Embora o texto a seguir não seja propriamente literário, mas ocultista, transcrevê-lo-ei devido às belas imagens poéticas que evoca. 

      “O Lúcifer da cabala não é um anjo maldito e fulminado, é o anjo que ilumina e que regenera queimando; é para os anjos de paz o que o cometa é para as tranquilas estrelas das constelações da primavera.
      A estrela fixa é bela, radiante e calma; ela respira os celestes aromas e olha com amor as suas irmãs; vestida com sua roupagem esplêndida e a fronte ornada de diamantes, ela sorri, cantando o seu cântico da manhã e da tarde; goza um repouso eterno que nada poderia perturbar, e caminha solenemente, sem sair do lugar que lhe é determinado entre as sentinelas da luz.
      Contudo, o cometa errante, todo ensanguentado e desgrenhado, acorre das profundezas do céu; precipita-se através das esferas tranquilas, como um carro de guerra entre as fileiras de uma procissão de vestais; ousa afrontar a espada flamejante dos guardas do sol, e, como uma esposa apaixonada que procura o esposo sonhado pelas suas noites de viuvez, penetra até o tabernáculo do rei dos dias, depois foge, exalando os fogos que o devoram e arrastando após si um longo incêndio; as estrelas empalidecem ao seu aproximar, os rebanhos constelados que pastam flores de luz nas vastas campinas do céu parecem fugir do seu sopro terrível. O grande conselho dos astros se reúne, e a consternação é universal: a mais bela das estrelas fixas é, enfim, encarregada de falar em nome de todo o céu e propor a paz ao mensageiro vagabundo.
      Meu irmão – diz ela – por que perturbas a harmonia das nossas esferas? Que mal te fizemos nós e por que, em vez de errar ao acaso, não te fixas no teu lugar na corte do sol? Por que não vens cantar conosco o hino da tarde, enfeitado, como nós, com uma roupa branca que se prende no peito por um broche de diamante? Por que deixas flutuar, através dos vapores da noite, a tua cabeleira, da qual escorre um suor de fogo? Oh! Se tomasses um lugar entre os filhos do céu, quanto parecerias mais belo! A tua fronte não ficaria mais inflamada pela fadiga da tua carreira inaudita; teus olhos seriam puros e tua fronte sorridente seria branca e avermelhada como a de tuas felizes irmãs; todos os astros te conheceriam, e, longe de temer a tua passagem, se alegrariam ao teu aproximar; porque estarias ligado a nós pelos laços indestrutíveis da harmonia universal, e a tua existência seria mais uma voz no cântico do amor infinito.
      E o cometa responde à estrela fixa:
      Não creias, ó minha irmã, que possa errar ao acaso e perturbar a harmonia das esferas; Deus traçou meu caminho como o teu, e se a minha carreira te parece incerta e vagabunda, é porque os teus raios não poderiam estender-se tão longe para abarcar o contorno da elipse que me foi dada por carreira. A minha cabeleira inflamada é o fanal de Deus; sou o mensageiro dos sóis e fortaleço-me nos seus fogos para os partilhar no meu caminho aos novos mundos que ainda não têm bastante calor, e aos astros envelhecidos que têm frio na sua solidão. Se me afadigo nas minhas longas viagens, se sou de uma beleza menos atrativa do que a tua, se o meu enfeite é menos virginal, não deixo, por isso, de ser, como tu, um nobre filho do céu. Deixa-me o segredo do meu destino terrível, deixa-me o espanto que me rodeia, amaldiçoa-me, se não podes compreender-me: não deixarei, por isso, de realizar a obra que me foi imposta e continuarei a minha carreira sob o impulso do sopro de Deus! Felizes das estrelas que repousam e que brilham, como jovens rainhas, na sociedade tranquila dos universos! Eu sou o proscrito que viaja sempre e tem o infinito por pátria. Acusam-me de incendiar os planetas que aqueço e de atemorizar os astros que ilumino; censuram-me de perturbar a harmonia dos universos porque não giro ao redor dos seus centros particulares e os prendo uns aos outros, fixando meus olhares no centro único de todos os sóis. Fica, pois, sossegada, bela estrela fixa, não quero tirar a tua luz tranquila; pelo contrário, esgotarei por ti a minha vida e o meu calor. Poderei desaparecer do céu quando me tiver consumido; a minha sorte terá sido tão bela! Saiba que no templo de Deus ardem fogos diferentes que lhe dão glória; tu és a luz dos candelabros de ouro, e eu a chama do sacrifício: realizemos os nossos destinos.
     Acabando estas palavras, o cometa sacode a sua cabeleira, cobre-se com a sua couraça ardente e se lança nos espaços infinitos em que parece desaparecer para sempre.
      É assim que aparece e desaparece Satã, nas narrações alegóricas da Bíblia.
      Um dia, diz o livro de Jó, os filhos de Deus tinham vindo para se apresentarem ao Senhor e, entre eles, também estava Satã, a quem o Senhor perguntou: Donde vens?
      E ele respondeu: Fiz a volta da terra e a percorri.
      Eis como um evangelho gnóstico, encontrado no Oriente por um sábio viajante, nosso amigo, explica, em proveito do simbólico Lúcifer a gênese da luz:
      “A verdade que se conhece é o pensamento vivo. A verdade é o pensamento que está em si mesmo; e o pensamento formulado é a palavra. Quando o pensamento eterno procurou uma forma, disse: “Faça-se a luz!”
      Ora, este pensamento que fala é o Verbo; e o Verbo diz: “Faça-se a luz, porque o próprio Verbo é a luz dos espíritos”.
      A luz incriada, que é o Verbo divino, irradia porque quer ser vista; e quando diz: “Faça-se a luz!”, ordena aos olhos que se abram; criam inteligências.
      E quando Deus disse: “Faça-se a Luz!”, a inteligência foi feita e a luz apareceu.
      Ora, a inteligência, que Deus tinha vertido do sopro da sua boca, como uma estrela desprendida do sol, tomou a forma de um anjo esplêndido e o céu o saudou com o nome de Lúcifer.
      A inteligência despertou-se e compreendeu totalmente a si mesma ao ouvir esta palavra do Verbo divino: “Faça-se a luz!”
      Ela sentiu-se livre, porque Deus lhe tinha ordenado de o ser; e respondeu, levantando a cabeça e estendendo as suas asas:
      - Não serei a escravidão!
      - Serás, pois, a dor? – perguntou-lhe a voz incriada.
      - Serei a Liberdade! – respondeu a voz.
      - O orgulho te seduzirá – retrucou a voz suprema – e produzirás a morte.
      - Tenho necessidade de lutar contra a morte para conquistar a vida – disse ainda a luz criada.
      Deus, então, desprendeu do seu seio o fio de esplendor que retinha o anjo soberbo e, vendo-o lançar-se na noite que assinalava de glória, amou o filho do seu pensamento e, sorrindo com inefável sorriso, disse a si mesmo: “Como a luz era bela!”
      Deus não criou a dor; é a Inteligência que a aceitou para ser livre. E a dor foi a condição imposta ao ser livre, por aquele que é o único que se não pode enganar, porque é infinito.
      Porque a essência da inteligência é o juízo; e a essência do juízo é a liberdade.
      O olho percebe realmente a luz pela faculdade de fechar-se e abrir-se. Se fosse forçado a estar sempre aberto, seria escravo e vítima da luz; e, para fugir desse suplício, cessaria de ver.
      Assim, a Inteligência criada não só é feliz de afirmar a Deus pela liberdade que tem de negar a Deus. Ora, a Inteligência que nega, afirma sempre alguma coisa, pois afirma a sua liberdade.
      É por isto que o blasfemo glorifica a Deus; é por isso que o inferno era necessário à felicidade do céu.
      Se a luz não fosse repelida pela sombra, não haveria formas visíveis.
      Se o primeiro dos anjos não tivesse afrontado as profundezas da noite, a parturição de Deus não teria sido completa e a luz criada não teria podido separar-se da luz por essência.
      Jamais a Inteligência teria sabido quanto Deus é bom, se nunca o tivesse perdido!
      Jamais o amor infinito de Deus teria brilhado nas alegrias da sua misericórdia, se o filho pródigo do céu tivesse ficado na casa de seu pai.
      Quando tudo era luz, a luz não estava em parte alguma; ela estava contida no seio de Deus que estava em trabalho para a produzir. E quando disse: “Faça-se a luz!”, permitiu que a noite repelisse a luz e o universo saiu do caos.
      A negação do anjo que, ao nascer, recusou ser escravo, constituiu o equilíbrio do mundo e o movimento das esferas começou.
      E os espaços infinitos admiraram este amor da liberdade, tão imenso para encher o vácuo da noite eterna e tão forte para suportar o ódio de Deus.
      Mas Deus não podia odiar o mais nobre de seus filhos, e só o experimentava, pela sua cólera, para confirmá-lo no seu poder.
      Por isso, o próprio Verbo de Deus, como se tivesse inveja de Lúcifer, quis descer do céu e atravessar triunfalmente as sombras do inferno.
      Quis ser proscrito e condenado; e meditou adiantadamente a hora terrível em que exclamaria, no extremo do seu suplício: “Meu Deus! Meu Deus! por que me abandonaste?” (Na verdade, Cristo falou: “Meu Deus! Meu Deus! Quanto me glorificas!”)
      Como a estrela da manhã precede o sol, a insurreição de Lúcifer anunciou à natureza nascente a próxima encarnação de Deus.
      Talvez Lúcifer, caindo na noite, arrastou uma chuva de sóis e estrelas por atração da sua glória!
      É por isso que, sem dúvida, fica calmo ao alumiar as horríveis angústias da humanidade e a lenta agonia da terra, porque é livre na sua solidão e possui sua luz.”

      (“Dogma e Ritual de Alta Magia”, Eliphas Levi, Introdução da Segunda Parte, o Ritual.)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

"Fausto" - Goethe (Parte 4)

“FAUSTO” – GOETHE

“FAUSTO
Do diabo vale a pena ver também
Em que conceito a natureza tem.

MEFISTÓFELES
Tanto faz! Seja ela o que for, imponho
Só um ponto de honra: Estava lá o demônio!
Somos pessoal de intuitos colossais;
Violência, convulsões! vês os sinais!”
(Página 387)

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“MEFISTÓFELES
Já te contento.
Escolheria uma metrópole graúda,
Onde o habitante um a um gruda,
Entre arcos, vielas, frontões, becos,
Feira de couves, nabos secos,
Bancas nas quais hordas nefandas
De moscas pastam gordas viandas,
Em qualquer tempo a gente lá há de
Ver podridão e atividade.
Depois, ruas e vastas praças,
A darem-se ares de ricaças;
E, onde portal algum limita,
Subúrbios numa área infinita.
Rodando em coches folgaria
Lá em ruidosa correria,
Por entre o vaivém desordeiro
Do espesso humano formigueiro.
Montado, ou andando eu lá por dentro,
Seria eu sempre a mira, o centro,
Por mil aclamado altamente.

(...)

MEFISTÓFELES
Construiria um castelo, grandioso,
No campo, para o meu repouso,
Florestas, morros áreas sem fim,
Formando esplêndido jardim.
Ao pé do bosque, verde alfombra,
Aléas doando luz e sombra,
Cascata a fluir, flóreos lauréis e buchos
Orlando artísticos repuxos
Que ao alto lançam jacto argênteo e esguio,
Que em mil miudezas logo escorre a fio.
Erguendo inda às mulheres mais formosas
Casinhas íntimo-amorosas,
Passava um bom tempinho, então,
Em tão gentil, sociável solidão.
Eu disse: às damas; faze por lembrá-lo!
Das belas no plural só falo.”
(Páginas 388-389)

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“MEFISTÓFELES
O corpo jaz e à fuga o espírito se apronta;
O título, ei-lo aqui: firmado em sangue, e idôneo;
O mal é que hoje em dia, há métodos sem conta,
Para se subtrair as almas ao demônio.
Por modo antigo a gente ofende,
Não há, por novo, quem nos recomende;
A sós teria o feito dantes,
Hoje preciso de ajudantes.”
(Página 437)

      (“Fausto”, Goethe, tradução de Jenny Klabin Segall, Villa Rica Editoras Reunidas Limitada, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, 3ª Edição, 1991, Grandes Obras da Cultura Universal, Volume 3.)

Série "Diabolu In Versus".

terça-feira, 15 de setembro de 2015

"Fausto" - Goethe (Parte 3)

“FAUSTO” – GOETHE

“MEFISTÓFELES
(carregando Fausto sobre os ombros)
Meter-se com malucos dessa laia,
Faz com que ao próprio diabo errado saia.”
(Página 268)

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“MEFISTÓFELES
(...)
Já o pressenti: fui toleirão de monta;
De parvo e inepto ora me tenho em conta.”
(Página 274)

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“MEFISTÓFELES
(...)
Eis-me em meu brilho,
Do Caos o bem amado filho!”
(Página 316)

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“MEFISTÓFELES
(com seriedade)
Deus o Senhor – sabe-se a causa – quando
Do éter nos exilou à profundeza
Em que arde fogo cêntrico, abraseando
Voraz conflagração em torno acesa,
Vimo-nos lá, na luz exagerada,
Em situação incômoda e apertada.
Pôs-se a tossir toda a mó dos demônios,
Do alto e baixo a expelir bofes medonhos,
O inferno encheu de enxofre, ácido e azia,
Deu isso um gás! monstruoso em demasia,
Até que em breve, apesar de robusta,
Rebentou afinal a térrea crusta.
A cousa agora está por outro bico:
O que antes era a base, hoje é o pico.
Daí o ensino lógico é oriundo:
Virar-se para o mais alto o mais fundo;
Pois escapamos da opressiva esfera,
À integração no ar livre da atmosfera.
É segredo óbvio, muito bem guardado,
Pois aos povos não foi tão cedo revelado. (Ef. 6, 12)”
(Página 386)


Série "Diabolu In Versus".

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

"Fausto" - Goethe (Parte 2)

“FAUSTO” – GOETHE

“FAUSTO
A arte do espião, vejo, é do teu agrado.

MEFISTÓFELES
Tudo eu não sei: porém, ando bem informado.”
(Página 79)

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“MEFISTÓFELES
Sangue é um muito especial extrato.”
(Página 84)

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“FAUSTO
Mas que tens? que te aborreceu?
Nunca vi cara assim tão brava!

MEFISTÓFELES
Irra! ao demônio me entregava,
Se não fosse o demônio eu!”
(Página 131)

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“MEFISTÓFELES
(...)
A gente bebe, ri, dança, anda, ama ao redor;
Dize-me, pois, onde há cousa melhor?”
(Página 181)

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“MEFISTÓFELES
Bom, hoje a gente não descansa;
Música nova; então! vamos entrar na dança.”
(Página 184)

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“XENIES
Com torqueses mui pontudas,
Nós, insetos, viemos cá,
Pra prestar honras graúdas
A Satã, nosso papá.”
(Página 181)

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“MEFISTÓFELES
(...)
Com bruxas, trasgos, monstros de feitiço,
Sempre e tão logo estou a teu serviço.
Mas em que pesem diabas femininas,
Não poderão passar por Heroínas.”
(Página 254)

Série "Diabolu In Versus".

domingo, 13 de setembro de 2015

"Fausto" - Goethe (Parte 1)

“FAUSTO” – GOETHE

“MEFISTÓFELES
(...)
De mundos, sóis, não tenho o que dizer,
Só vejo como se atormenta o humano ser.”
(Página 36)

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“MEFISTÓFELES
(...)
Coitados! em seu transe os homens já lamento,
Eu próprio, até, sem gosto os atormento.”
(Página 37)

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“MEFISTÓFELES
(...)
Vejo, uma ou outra vez, o Velho com prazer,
Romper com ele é que seria errôneo.
É, de um grande Senhor, louvável proceder
Mostrar-se tão humano até pra com o demônio.”
(Página 39)

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“FAUSTO
Que nome tens?

MEFISTÓFELES
Questão de pouco peso
Para quem vota aos termos tal desprezo
E que, afastado sempre da aparência,
Dos seres só procura a essência.

FAUSTO
Com vossa espécie a gente pode ler
Já pelo nome o ilustre ser,
Que se revela sem favor
Com a marca de mendaz, blasfemo, destruidor.
Pois bem, quem és então?

 MEFISTÓFELES
Sou parte da Energia
Que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria.

FAUSTO
Com tal enigma, que se alega?

MEFISTÓFELES
O Gênio sou que sempre nega!
E com razão; tudo o que vem a ser
É digno só de perecer;
Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais.
Por isso, tudo a que chamais
De destruição, pecado, o mal,
Meu elemento é, integral.”
(Página 71)

Série "Diabolu In Versus".

sábado, 12 de setembro de 2015

Homem do Oeste... - Dr. Muhammad Iqbal

      Homem do Oeste. A terra de Deus não é um estabelecimento comercial.
      Aquilo que te parece brilhante logo perderá seu valor.
      Tua civilização cometerá suicídio com seu próprio punhal.
      Um ninho construído em um galho frágil não pode durar muito.

      (Dr. Muhammad Iqbal, 1877-1938, Poeta Nacional do Paquistão.)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Escrava do Dinheiro - Patativa do Assaré (Parte 3)

A escrava do dinheiro
(Regina larga o marido pobre pra ficar com um rico)

Patativa do Assaré

A sua fala não era
Como as fala do sertão.
Tinha todo o requifife
Da coisa de inducação,
Mas não valia de nada,
Era inducação formada
De pena, tinta e papé.
Era inducação no jeito,
Mas tinha dentro do peito
Veneno de cascavé.

Naquela noite de festa,
Provou com seu mau costume
Que a inducação dele era
Fora do santo rejume.
Quando ele oiou pra Regina,
Pra beleza da menina,
Vi logo que ele ficou
Mardando e se penerando,
Como gavião oiando
Pra rola fogo-pagou.

Regina oiava pra ele
Mas sem pensá em xodó,
Sua ceguêra era o enfeito
Da gola do palitó,
Eu tava vendo e sabia
Que não era simpatia,
Era inveja, era imbição,
Não era amô nem caboje,
Era os ôro, era o reloge,
A corrente e os anelão.

Agora vocemincêis
Preste atenção e me escute,
Pra sabê como o dinhêro
Faz a pintura do fute.
Apois aquele sujeito,
Me fartando com o respeito
E abrindo pertinho d’eu
Uma borsa atopetada
De nota verde e rajada,
Regina se derreteu.

Regina se transformou
E com inveja sem fim
Piscava os óio pro cara,
Sem querê sabê de mim.
E pra encurtá minha histora,
Mais tarde umas certas hora
Qué sabê o que ela fez?
Me engabelou sem escrupo
E logo, traz-zás num vupo,
Foi se embora com o freguês.

Pras banda do Pioí
O descarado azulou,
Com Regina, a sertaneja,
A causa da minha dô.
Por isso é que eu disse e digo:
Dinhêro é grande inimigo,
Dinhêro é farso e crué,
E ainda mais faz afronta
Quando ele toma de conta
De um coração de muié.

Ninguém vá pensá que eu conto
Histora que uvi contá,
Isso se passô comigo
Numa noite de Natá,
Vinte e quatro de dezembro.
Inda hoje, quando me lembro
Daquela farsa Regina,
Daquela ingrata cabôca,
Eu sinto no céu da boca
Um gosto de quina-quina.

Já tou véio e sou casado,
Não tenho mais inlusão,
Mas inda vejo Regina
Na minha maginação,
Essa mágua inda padeço,
Pelejo mas não me esqueço
Do má que ela fez a mim,
Inda me fere e me dói,
Não sei pra que Deus estrói
Beleza com gente ruim.

Ô natureza de cobra!
Bem dizia o meu avô
Que há gente pra tudo e sobra
Neste mundo enganadô.
Eu fiquei horrorizado,
Quage doido, amalucado,
De vê aquela muié
Se atranvancá nos abismo
Por causa de uns argarismo
E uns pedaço de papé.

Dinhêro é um fogo ardente
Que faz munto coração
Se derretê como cera
Na quintura do tição.
Dinhêro trensforma tudo,
Faz de um alegre um sisudo,
Dá nó e desmancha nó,
E finalmente o dinhêro
É o maió feiticêro,
É o Rei do Catimbó.

(“Patativa do Assaré – Melhores Poemas”, seleção de Cláudio Portella, Global Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo, 2006, Páginas 238 a 250.)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A Escrava do Dinheiro - Patativa do Assaré (Parte 2)

A escrava do dinheiro
(Regina larga o marido pobre pra ficar com um rico)

Patativa do Assaré


Regina tinha um defeito
Que eu não posso perdoá:
Era escrava do dinhêro,
Era toda de metá...
Quando ela às vez me falava
No luxo que desejava
Pulsêra, colá, cordão,
Vestido de seda e crepe,
Era mêrmo que uns estrepe
Furando em meu coração.

Ora, sendo eu um cabôco
Dos mato, assim como sou,
Que só pissuo uma roça
E um cavalo corredô,
Quando essas coisa escutava
Meu juízo latejava
Num reboliço sem fim.
Não acabava o noivado
Porque tava enraizado
Esse amô dentro de mim.

Eu tava loco de amô,
Queria mêrmo casá.
Já tinha inté perparado
A casa pra nós morá.
O pai dela e seus parente
Já tava tudo ciente
Da nossa santa união.
O povo todo sabia
Que nós casava no dia
Do mártir Sebastião.

Vinha chegando janêro,
Era vespra de Natá;
Foguete de toda sorte
Subia rompendo o á;
A meninada em folia
Brincando se divertia
Com traque, com buscapé,
E as moça e seus namorado,
Cada quá mais animado
Rodava nos carrocé.

Os cabôco mais farrista
Devorava aqui e ali
Um tragozinho gostoso
De cana do Cariri.
E o beato Zé Perêra
Com as muié rezadêra
E as outra famia de bem,
Todos de prazê repreto
Perparava os objeto
Da lapinha de Belém.

Eu era naquele dia
O mais feliz do sertão;
Passeava com Regina
Segurado em sua mão,
E era por este respeito
Que eu tava bem satisfeito,
Alegre como xexéu
Na cajazêra cantando
Quando o só vem apontando,
Beijando as nuve do céu.

Mas é certo aquele dito
Dos véio antigo de atrás:
Que o cão não come nem bebe
Senão das arte que faz.
Naquela noite de festa
Eu vi o diabo de testa,
Coisa de fazê tremê,
E embora forte e disposto
Senti o maió desgosto
Que o home pode sofrê.

Chegou num carro de luxo,
Mandado não sei por quem,
Um desses home perdido
Que este nosso mundo tem,
Todo pronto, engruvatado,
Não sei por quem foi mandado
Aquele crué dragão,
Que chegou ali somente
Mode entristecê a gente
Daquela povoação.

Pelo jeito parecia
Que o sujeito era ricaço,
Tinha um relojo no peito
E ôto na cana do braço,
E mais ôtas fantasia,
Na hora que ele se ria
A boca era ôro só,
E além dos ôro dos dente,
Uma bonita corrente
Na gola do palitó.

Era alinhado devera
Aquele rico freguês,
Uns três anelão no dedo,
No nariz uns pichinez;
Não pude sabê seu nome,
Nem tombém sube aquele home
Aonde era moradô.
Só sei que quando falava,
Na sua conversa dava
As parença de um dotô.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A Escrava do Dinheiro - Patativa do Assaré (Parte 1)

A escrava do dinheiro
(Regina larga o marido pobre pra ficar com um rico)

Patativa do Assaré

(Parte 1)

Boa noite, home e menino
E muié deste lugá!
Quero que me dê licença
Para uma histora contá.
Como matuto atrasado
Eu dêxo as língua de lado
Pra quem as língua aprendeu,
E quero a licença agora
Mode eu contá minha histora
Com a língua que Deus me deu.

Mas ante de eu começá,
Eu premeramente vou
Dizê que que o dinheiro é
O maió trensformadô,
Apois sabe o mundo intero
Que este bichinho dinhêro,
Com sua força e podê,
A sua mancha, o seu jeito,
Tem feito munto sujeito
Sisudo se derretê.

Dinhêro trensforma tudo,
Dinhêro é quem leva e trás,
Eu nem quero nem dizê
Tudo o que dinhêro faz.
Apenas aqui eu conto
Que ele pra tudo tá pronto,
Ele é cabrero e treidô,
É carrasco e é vingativo,
Só presta pra ser cativo,
Não presta pra ser senhô.

A pessoa neste mundo
Bota o pé na perdição
Quando ela dêxa o dinhêro
Gonverná seu coração.
Pra o povo que tá me uvindo
Não dizê que tou mentindo
Eu vou agora contá
Uma histora pequenina,
A histora de Regina,
Pra ninguém me duvidá.

Regina era minha noiva,
Meu amô, minha inlusão,
A morena mais bonita
Do meu querido sertão.
Seus grandes óio perfeito
Fazia quarqué sujeito
Tropeçá no brocotó,
Era vê no mês de maio
Dois grande pingo de orvaio
Tremendo na luz do só.

Os seus laibo era corado
Como a cera da cupira,
A fala tinha a doçura
Do favo da jandaíra.
O nariz bem afilado,
Cabelo preto e anelado,
Da cô da pena do anum.
Todos que conheceu ela
Dizia que era a mais bela
Do sertão dos Inhamun.

E era mêrmo a mais bonita,
Quem conheceu inda diz,
Ela tinha a perfeição
Da Santa lá da Matriz
Quando na festa se enfeita.
Se as mão dela era bem feita,
Mais bem feito era os seus pé,
Vocemincêis pode crê:
Valia a pena se vê
Essa franga de muié.

Mas dêrna de eu pequenino
Que eu oiço o povo dizê
Que no mundo um bom sem farta
Não houve, nem pode havê.
Pra que coisa mais formosa,
Mais bonita e luminosa
De que a pinta da corá?
Mas ela tem um veneno
Que mata o grande e o pequeno,
Triste do que ela pegá!

Ninguém lê nos coração,
E este mundo é um imbé,
Onde o cabra engole delas
Que o diabo enjeita e não qué.
Muitas coisa se padece
Só porque ninguém conhece
No mundo véio, infeliz,
Onde é que a bondade mora;
Às vez, o que é bom por fora
Por dentro não vale um xis.