sábado, 10 de outubro de 2015

“A Lua Vem da Ásia” - Campos de Carvalho

      “O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que escrevi minha primeira palavra feia no muro alto do colégio – exatamente essa bela palavra MERDA que agora me fita do outro lado da rua, como um desafio. MERDA é tudo que não seja a morte, que talvez também o seja, e disso sempre tiveram consciência os homens menos mentecaptos em seus momentos de maior lucidez, e que são poucos. Merda é a própria vida, mero eufemismo para uso dos salões elegantes e dos tratados diplomáticos, que também são uma merda como tudo mais, como sempre o foram e o serão até o fim dos tempos. Proponho mesmo que, em lugar dos nomes dos países, se diga simplesmente: Merda nº 1, Merda nº 2, e assim por diante, chamando-se aos Estados Unidos a Capital de todas as merdas, como de fato eles o são.” (Página 105)

      “Uma bela noite, porém, após ter passado toda a tarde em companhia de minha vetusta e ardente protetora, e como me houvesse excedido um pouco em minhas doses habituais de whisky e de champagne, deu-se o imprevisto e o inevitável: - Em pleno salão de Mme. Martínez y Viola, descendente direta da papisa Joana, quando declamava uns versos fesceninos e grandiloquentes o laureado poeta  Silvano dal Monte, eu não me contive e bradei com todas as forças dos meus pulmões algumas duras verdades que, mais cedo ou mais tarde, teria mesmo que lançar no rosto de toda aquela gente reunida em torno de mim e vivendo à custa de meus elogios diários ou hebdomadários. Algo assim neste estilo, se não me falha a memória: - ‘Nem parece que todos vós tendes intestinos e, na ponta desses intestinos, um lamentável cu, exatamente igual ao que têm vosso açougueiro, vosso chofer, vosso camareiro, vossos cachorros e vossos cavalos de raça. Vosso cu é a melhor arma que tendes para afugentar os maus pensamentos, que são aqueles que vos afastam da simplicidade humana e da humana aceitação da vida – e é para o vosso cu que vos conclamo olheis diante do espelho, se preciso de-joelhos e com uma vela na mão para enxergar melhor, toda vez que vos sentirdes possuídos de um orgulho oceânico e vos julgardes tão poderosos quanto vosso Deus, que pelo menos (que eu saiba) não tinha nenhum cu à vista.’ ”  (Página 132)

(“A Lua Vem da Ásia”, Campos de Carvalho, Editora Codecri, Pasquim, Rio de Janeiro, 1977, 3ª Edição.)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Segundo Soneto Sádico - Glauco Mattoso

      SEGUNDO SONETO SÁDICO

      Nos “120 dias de Sodoma”
      o Mestre prioriza a merda pura,
      que consta do menu como mistura,
      e sempre há no banquete quem a coma.

      A merda é náusea em cor, sabor, aroma.
      Comê-la é só um requinte de tortura
      que põe papas e reis de pica dura
      enquanto o povo a prova em França ou Roma.

      Na época, o Brasil, colonizado,
      pagava a Portugal todo seu ouro
      e, em troca, o Alferes era esquartejado.

      No século atual, quem lambe o couro
      é o cego, num sapato já mijado
      e sujo até de letras do tesouro...”

(“Centopeia – Sonetos Nojentos & Quejandos”, Glauco Mattoso, Edições Ciência do Acidente, São Paulo, 1999, Soneto Nº 2.105”)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Soneto Escatológico - Glauco Mattoso

      SONETO ESCATOLÓGICO

      “Cagando estava a dama mais formosa...”
      Assim falou Bocage num soneto
      do mesmo naipe deste que cometo
      sobre a reputação que a merda goza.

      A crítica a compara à rara rosa
      se obrada na miséria dalgum gueto.
      Políticos proferem-na: “Eu prometo...”
      e a mídia a tematiza em verso e prosa.

      É tanto incompetente apadrinhado
      fazendo merda e sendo promovido
      que, quando comecei o aprendizado,

      pensei: “Que seja próprio o seu sentido,
      porque já me enojei do figurado!”
      E então fui rei da merda com que agrido.

(“Centopeia – Sonetos Nojentos & Quejandos”, Glauco Mattoso, Edições Ciência do Acidente, São Paulo, 1999, Soneto Nº 2.72”)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

“Gargantua” - François Rabelais

      “COMO GRANDGOUSIER CONHECEU O ESPÍRITO MARAVILHOSO DE GARGANTUA NA INVENÇÃO DE UM LIMPA-CU

      Passados cinco anos, de regresso da vitória das Canárias, Grandgousier foi visitar seu filho Gargantua. Estava alegre como podia estar um pai ao ver tal filho e, beijando-o e abraçando-o, fez-lhe várias perguntas pueris sobre os assuntos mais diversos. Bebeu muito com ele e as governantes, às quais, cheio de cuidados, perguntou, entre outras coisas, se o haviam conservado asseado e limpo. Gargantua respondeu que, a esse respeito, tinha dado tal ordem que, em todo o país, não havia menino mais limpo do que ele.
      - Como assim? – indagou Grandgousier.
      - É que – respondeu Gargantua – por longa e curiosa experiência, eu descobri um meio de limpar o cu, o mais real, mais senhoril, mais excelente e mais expediente que já se viu.
      - Qual? – pergunta Grandgousier.
      - É o que vou contar agora – responde Gargantua – uma vez, eu me limpei com o cache-nez de veludo de uma moça, e gostei, porque a maciez da seda me causava no cu uma volúpia enorme. Outra vez, com uma boina da mesma moça, e foi a mesma coisa. Outra vez, com um xale. Outra vez, com umas orelheiras de cetim encarnado, mas tinham umas esferas douradas de merda que me esfolaram todo o rabo. O fogo de Santo Antônio (Nota: O carbúnculo.) queime o olho-do-cu de quem as fez e da moça que as usava! A dor passou depois que me limpei com o gorro de um pajem, todo emplumado à suíça. Depois, cagando atrás de uma moita, peguei uma fuinha e me limpei, mas com as unhas ela me feriu todo o períneo; só fiquei curado no dia seguinte, quando me limpei com as luvas de minha mãe, todas perfumadas de boceta. Limpei-me depois, com salva, com funcho, com anete, com manjerona, com rosas, com folhas de abóbora, com couves, com acelga, com parreira, com alteia, com verbasco (que torna o cu escarlate), com alface e com folhas de espinafre – tudo isso me fez muito bem às pernas -, com mercurial, com persicária, com urtiga, com consolda, mas fiquei cagando sangue e só me curei ao limpar-me com o caralho. Depois eu me limpei com um lençol, com um cobertor, com uma cortina, com uma almofada, com um tapete, com um oleado, com um esfregão, com um lenço, com um peignoir. E tive prazer maior do que os sarnentos quando coçados.
      “ – É verdade – diz Grandgousier – mas qual foi o limpa-cu que você achou melhor?
      - Já chego lá – responde Gargantua – e você ficará sabendo, tu autem. (Nota: Palavras tomadas do fim do breviário: Tu autem, Domine... Gargantua quer dizer que vai terminar.) Limpei-me com feno, com palha, com tripa de boi, com crina, com lã, com papel. Mas,

      Os colhões nunca deixa de sujar
      Quem com papel costuma se limpar.

      - O quê! – exclama Grandgousier – estou vendo que você bebeu, pois está rimando!
      - Sim, papai – responde Gangantua – rimo muito, e rimo tanto que me arrimo. Escute o que diz a nossa privada aos cagadores:

            Cagão,
            Borrão,
            Mijão,
            Peidão!
            Teu troço
            Saiu,
            Caiu
            No fosso.
            Caroço
            Colosso
            Tens tu
            No cu!

      Quero que morras tostado,

            Se agora,
            Nesta hora,

      Daqui saíres cagado.

      - Quer mais?
      - Quero – responde Grandgousier.
      - Então – diz Gargantua – ouça:

                                              RONDÓ

            Há dias, quando cagava,
            Tive o que me era devido:
            O cheiro eu não esperava
            E fiquei todo fedido.
            Oh! Se houvessem consentido
            Em levar-me o que aguardava,
                                   Cagando!

            A pissa de quem chegasse
            Teria eu logo tapado,
            Para que também fechasse
            O meu buraco borrado.
                                    Cagando!

      - E agora, diga que não sei nada. Juro que esses versos não são meus e que só os guardei na caixa da memória depois de ouvir aquela senhora recitá-los.
      - Mas – diz Grandgousier – voltemos ao assunto.
      - Qual? – pergunta Gargantua – cagar?
      - Não – respondeu Grandgousier – limpar o cu.
      - E você – indaga Gargantua – está disposto a pagar-me uma pipa de vinho bretão se eu o deixar encabulado com a história?
      - Naturalmente – responde Grandgousier.
      - Pois bem – continua Gargantua – só se limpa o cu quando ele está sujo; ora, ele só está sujo quando se caga; logo, para limpar o cu é preciso cagar.
      - Oh! – exclama Grandgousier – que lógica tem você, meu pimpolho! Juro que vou mandá-lo para a Sorbonne, pois você tem mais raciocínio do que idade. E, agora, continue a descrição limpaculativa, vamos! Em lugar de uma pipa, eu lhe darei sessenta desse bom vinho bretão, que não cresce na Bretanha, mas em Verron. (Nota: Antiga cidade francesa, perto de Chinon.)
      - Depois – continua Gargantua – eu me limpei com uma carapuça, com um travesseiro, com um chinelo, com uma bolsa, com uma peneira (maldito limpa-cu) e com um chapéu. E note que uns chapéus são lisos, outros felpudos, outros aveludados, outros acetinados. O melhor de todos é o felpudo, porque faz ótima abstersão da matéria fecal. Depois, eu me limpei com uma galinha, com um galo, com um frango, com uma pele de veado, com uma lebre, com um pombo, com um corvo-marinho, com uma pasta de advogado, com um capuz, com uma touca, com um passarinho de couro. Mas, concluindo, digo e afirmo que não há melhor limpa-cu do que um ganso com bastante pena, desde que se ponha a cabeça dele entre as pernas. Fique certo de que, fazendo assim, você sentirá no olho-do-cu uma volúpia mirífica, quer pela maciez da penugem, quer pelo calor temperado do ganso, que facilmente se comunica aos intestinos e atinge, depois, a região do coração e do cérebro. E não pense que a beatitude dos heróis e dos semideuses que se acham nos Campos Elísios esteja no asfódelo, ou na ambrósia, ou no néctar, como contam essas velhas. Em minha opinião, ela reside no fato de que limpavam o cu com um ganso. A mesma opinião é sustentada por João da Escócia. (Nota: Duns Scot [1274-1308], teólogo inglês, adversário de São Tomás de Aquino, cognominado o Doutor Sutil, por ter sido um dos intérpretes mais sutis da filosofia escolástica.)”

      (“Gargantua”, François Rabelais, Editora Hucitec, São Paulo, 1986, Capítulo XIII, Páginas 92 a 96.)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Peleja de Zé Molesta com Tio Sam - Ferreira Gullar (Parte 2)

Peleja de Zé Molesta com Tio Sam

Ferreira Gullar

Tio Sam disse: “Esta é boa!
Vocês são ingratalhões.
Vivo ajudando a vocês,
emprestando-lhes milhões,
e me vem você agora
dizer que somos ladrões.
Felizmente ainda existem
alguns brasileiros bons
como o Eugênio Gudin
e o Gouveia de Bulhões”.

Molesta deu uma risada:
“Discuta de boa fé.
Se você é tio deles,
meu tio você não é.
Explique então direitinho
o negócio do café”.

Tio Sam desconversou
mas Zé Molesta insistiu:
“Por que é que nosso café
de preço diminuiu?
Quanto mais café mandamos
recebemos menos dólar
e ainda vem você dizer
que vive nos dando esmola!
Você empresta uma parte
do que é nosso e a outra parte
você guarda na sacola”.

“Não fale assim – disse o velho –
que eu sempre fui seu amigo.
Mando a vocês todo ano
mil toneladas de trigo
e em troca nada lhes peço.
Criei os Corpos da Paz
e a Aliança para o Progresso.”

“Sei de tudo muito bem
mas você não nos engana.
Não pense que sou macaco
pra me entreter com banana.
O trigo que você fala
é o que fica armazenado
para que não baixe o preço
do seu trigo no mercado.
Você diz que dá de graça
mas nós pagamos dobrado.
É com ele que você paga
despesas do consulado
e da embaixada, enquanto
seu dólar fica guardado.

“É com ele que você compra
a opinião dos jornais
pra que eles enganem o povo
com notícias imorais,
pra que não digam a verdade
sobre esses Corpos da Paz
que na frente nos sorriem
e nos enganam por trás.”

Tio Sam disse a Molesta:
“Chega de conversação.
A moléstia que te ataca
já matou muito ladrão.
Você quer roubar meu ouro
e dividir meu milhão.
Comunista em minha terra
eu mando é para a prisão”.

“Ora veja, minha gente,
como esse velho é safado!
Apela pra ignorância
quando se vê derrotado.
Não quer que eu diga a verdade
sobre meu povo explorado.
Quer me mandar pra cadeia
quando ele é o culpado.”

“Vocês são todos bandidos,
chefiados por Fidel
- disse Tio Sam bufando,
da boca vertendo fel -
Querem transformar o mundo
num gigantesco quartel,
pondo os povos sob as botas
da ditadura cruel.”

“Essa conversa velhaca
não me faz baixar a crista
- disse Molesta – Me diga
quem foi que apoiou Batista?
Você deu arma e dinheiro
a esse ditador cruel
que assassinava, roubava
e torturava a granel.
Por que era amigo dele
e agora é contra Fidel?

“Você diz que é contra Cuba
porque é contra ditadura.
Será que na Nicarágua
há democracia pura?
Se você luta no mundo
pra a liberdade instalar
por que é amigo de Franco,
de Stroessner e de Salazar?
A verdade é muito simples
e eu vou logo lhe contar.
Você não quer liberdade,
você deseja é lucrar.
Você faz qualquer negócio
desde que possa ganhar:
vende canhões a Somoza,
aviões a Salazar,
arma a Alemanha e Formosa
pro mercado assegurar.”

Nessa altura Tio Sam
já perdera o rebolado.
Gritou: “Chega de conversa,
que estou desmoralizado!
Desliguem a televisão,
deixem o circuito cortado.
Mobilizem os fuzileiros,
quero esse ‘cabra’ amarrado.
Vamos lhe cortar a língua
pra ele ficar calado”.

“Eta que a coisa tá preta!
- disse pra si Zé Molesta –
Como estou na casa dele,
é ele o dono da festa.
Tenho que agir com cuidado
pra ver se me escapo desta.”

E foi um deus-nos-acuda,
barafunda, corre-corre.
Molesta pulou de lado.
“Quem não for ligeiro morre.
Pra me entregar pra polícia
só mesmo estando de porre.”
Pulou por cima das mesas,
por debaixo das cadeiras.
Deu de frente com dois guardas,
passou-lhes duas rasteiras.
Gritou: “Abre, minha gente,
que eu vou jogar capoeira!”

Abriu-se um claro na sala,
dividiu-se a multidão.
Rolou gente, rolou mesa,
rolou guarda pelo chão.
Em dois tempos Zé Molesta
sumira na confusão.

(“Toda Poesia (1950-1980)”, Ferreira Gullar, Círculo do Livro S.A., São Paulo, s/d, “Romances de cordel (1962-1967)”, Páginas 198 a 204.)

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Peleja de Zé Molesta com Tio Sam - Ferreira Gullar (Parte 1)

Peleja de Zé Molesta com Tio Sam

Ferreira Gullar

Esta é a história fiel
da luta que Zé Molesta
pelejou com Tio Sam,
que começando de noite
foi acabar de manhã
numa disputa infernal
que estremeceu céus e terra:
quase o Brasil vai à guerra
e o mundo inteiro à terceira
conflagração mundial.

Zé Molesta é um Zé franzino
nascido no Ceará
mas cantador como ele
no mundo inteiro não há.
Com seis anos sua fama
corria pelo Pará;
com oito ganhava um prêmio
de cantador no Amapá;
com nove ensinava grilo
a cantar dó-ré-mi-fá;
com dez fazia um baiano
desconhecer vatapá.

Assim fez sua carreira
de cantador sem rival
vencendo poeta de feira
de renome nacional.
Venceu Otacílio e Dimas,
Apolônio e Pascoal
rindo e brincando com as rimas
numa tal exibição,
cavalgando no “galope”
da beira-mar ao sertão,
soletrando o abecedário,
montando no adversário
quadrando quadra e quadrão.

Foi então que ouviu falar
desse tal de Tio Sam.
‘Tio de quem?” perguntou –
“Só se for de tua irmã!
O único tio que eu tive
salguei como jaçanã.”
Mas lhe disseram que o velho
era pior que Satã.
“Vamo nos topar pra ver
quem rompe vivo a manhã.”

Assim falou Zé Molesta
e mandou logo avisar
a Tio Sam que ficasse
preparado pra apanhar.
“Marque lugar, marque hora,
que eu canto em qualquer lugar.
Só quero que o mundo inteiro
possa a luta acompanhar
por rádio e televisão
e através do Telstar.”

Lançado o seu desafio
Zé Molesta se cuidou.
Correu depressa pro Rio
e aqui se preparou.
Falou com Vieira Pinto,
Nelson Werneck escutou
e nos Cadernos do Povo
durante um mês estudou.
“O resto sei por mim mesmo
que a miséria me ensinou.”

Enfim foi chegado o dia
da disputa mundial.
Na cidade de New York
fazia um frio infernal.
No edifício da ONU
foi preparado o local.
Zé Molesta entrou em cena
foi saudando o pessoal:
“Viva a amizade dos povos,
Viva a paz universal!”

Tio Sam também chegou
todo de fraque e cartola.
Virou-se pra Zé Molesta
e lhe disse: “Tome um dólar,
que brasileiro só presta
para receber esmola.
Está acabada a disputa,
meta no saco a viola”.

Zé Molesta olhou pra ele,
lhe disse: “Não quero não.
Não vim lhe pedir dinheiro
mas lhe dar uma lição.
Não pense que com seu dólar
compra minha opinião,
que eu não me chamo Lacerda
nem vivo de exploração”.

Tio Sam ficou sem jeito,
guardou o dólar outra vez.
Respondeu: “Esse sujeito
já se mostra descortês.
Já me faltou com o respeito
logo na primeira vez.
Vê-se logo que ele é filho
de negro e de português”.

“Não venha com essa conversa
de preconceito racial
- lhe respondeu Zé Molesta –
que isso é conversa boçal.
Na minha terra se sabe
que todo homem é igual,
seja preto seja branco,
da França ou do Senegal.
Antes um preto distinto
do que um rico sem moral.”

Tio Sam ficou danado
com a resposta de Molesta:
“Me dá dois dedos de uísque
que eu vou acabar com a festa.
Quem nasce naquelas bandas
já se sabe que não presta,
se não se vende pra nós
morre de fome e moléstia.
Se esse caboclo se atreve
meto-lhe um tiro na testa.
Não gosto de discutir
com negro metido a besta”.

“Mas não se zangue, meu velho
- respondeu-lhe Zé Molesta –
que agora que eu comecei.
Não vim pra brigar de tiro
mas pra dizer o que sei.
Na minha terra de fato
morre-se muito de fome
mas o arroz que plantamos
é você mesmo quem come,
a riqueza que criamos
você mesmo é quem consome.”

domingo, 4 de outubro de 2015

A Conversão do Diabo - Leinid Andreiev (Parte 13)

A CONVERSÃO DO DIABO

Leonid Andreiev

      O diabo pôs-se a trabalhar. Examinou palavra por palavra, letra por letra com minucioso cuidado. Copiava, comprovava comparando os textos, esforçando-se por se apoderar do fio sutil e apenas perceptível, que conduzia ao bem. Se o fio se quebrava, esforçava-se por juntar as extremidades.
      Não se cansava nem se irritava, esperando sempre chegar a conclusões necessárias, às regras do bem, regras que iriam servir para todos os povos e a todas as épocas. Não era ambicioso, mas as vezes dizia consigo com certo orgulho, talvez trabalhasse para a humanidade. Julgar-se-ia sua obra; reconheceriam o muito do seu trabalho e seria erigido um templo novo e magnifico em sua homenagem!...
      Impossível descrever o seu desespero e o seu horror, quando, depois de terminado o trabalho, nada encontrou, absolutamente nada. Nem uma ideia geral, nem uma verdade concludente, clara, indiscutível:
      "Não matarás; porém, se for necessário mata."
      "Não mentirás; porém, se for preciso, mente."
      "Dá tudo que tens ao próximo; porém, algumas vezes, tira-lhe o que possua."
      "Não cometas adultério, ainda que, a rigor, possas cometê-lo."
      "Não cobices a mulher do teu próximo; porém, se não há outro remédio, podes tirar-lhe sua mulher, seu escravo e seu boi."
      E assim por diante, em tudo o mais.
      Quase não havia uma só prescrição do manuscrito, que não fosse desmentida páginas adiante. Em seus esforços para chegar a conclusões gerais e claras, o diabo encontrava a cada passo mil contradições.
      O mais terrível era que o sacerdote admitia, prescrevendo mesmo em alguns casos, os assassínios e as mentiras, com uma serenidade desconcertante.
      - Quer dizer que sempre esteve a me enganar! exclamou o diabo pesaroso.
      Instintivamente uma ideia medonha passou por sua cabeça. Imaginou que o sacerdote fora um grande pecador. Porventura fora Satanás em pessoa que havia querido achincalhar o diabo?!
      Encolhido num canto, dizia para si, cheio de terror:
      - Sim... sim... é ele... é Satanás!... Sabendo de que eu procurava o bem com todo o meu coração, disfarçou-se em sacerdote, como eu me disfarcei em homem, e me perdeu para sempre. Não conhecerei jamais a verdade, jamais compreenderei o que é o bem. Serei desgraçado para todo o sempre. Desgraçado e maldito!...
      Esperou que a porta se abrisse e que Satanás nela se mostrasse com a boca escancarada no seu riso alegre e ruidoso. Satanás o perdoaria e o convidaria a voltar com ele para o inferno.
      Mas Satanás não apareceu e a porta continuou silenciosa.
      Depois de haver refletido, o diabo disse com seus botões:
      - Viverei no desespero fazendo o que ordena este manuscrito, sem saber jamais o que é o bem! Estou maldito para todo o sempre!...
      Foi envelhecendo cada vez mais.
      Quando, de acordo com o manuscrito, precisava salvar alguém, salvava; quando era preciso matar, matava. Pouco a pouco se habituou a isso, tranquilizando-se.
      Cumprindo ao pé da letra tudo o que ordenava o manuscrito, chegou até a sentir certa alegria. Apesar da certeza de estar maldito para todos os séculos, mal se desgostava com isso. Deixou, mesmo, de pensar no bem.
      Passava, no entanto, algumas vezes, por situações difíceis. Isso acontecia quando o manuscrito, meio destruído, interrompia-se e o diabo ficava sem saber o que havia de fazer em tal ou qual dia.
      Subia, então, ao campanário e ali permanecia horas e horas, dias inteiros, sem fazer nada, em plena vagabundagem. Os olhos fechados para não ver, os ouvidos tapados para não ouvir, permanecia imóvel como uma estátua. Suas mãos, capazes de derrubar montanhas, estavam cruzadas sobre o peito, condenadas à impotência. Sua abundante cabeleira tornara-se completamente branca.
      Ao vê-lo quieto e inerte, na velha igreja de Florença, ninguém diria ser aquele mesmo diabo um ser vivo, condenado ao sofrimento; acreditar-se-ia, mais facilmente, tratar-se de qualquer vetusta coluna, à qual ninguém, até esse momento, tivesse prestado atenção.
      Transcorriam assim as horas e os dias, sem que ele fizesse o mínimo movimento, numa inércia absoluta. As moscas passeavam no seu rosto e metiam-se-lhe pelos ouvidos e pela boca; um pó cinzento cobria-lhe todo o corpo; as aranhas teciam suas teias sobre sua cabeça...
      E ali continuava, sempre imóvel, aquele pobre diabo velho, tão amante do bem.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Conversão do Diabo - Leonid Andreiev (Parte 12)

A CONVERSÃO DO DIABO

Leonid Andreiev

      - Eu nasci atrás dessas montanhas, meu amigo! Ali está minha aldeia natal. Ali amei uma linda criaturinha, mas renunciei ao amor para servir a Deus. Durante inúmeros anos não pude me esquecer dela, nem da aldeia, e muitas vezes olhei na direção das montanhas, suspirando saudosamente. O sacerdote moribundo olhava cheio de alegria a seu redor e se entregava às suas recordações. O sol desaparecia pouco a pouco.
      - Amo também Florença, esta formosa cidade, em que vivi tanto tempo - continuou o sacerdote. - Agradava-me sentir sob meus pés as pedras tépidas de suas calçadas. Ah!, meu amigo, quando se anda pela terra setenta anos, esta se torna em alguma coisa assim como nossa mãe e até suas pedras perdem a dureza... E isto que estou dizendo será ainda mais certo ali, onde vou agora...
      O diabo soltou um suspiro; o sacerdote, que continuava em seus braços, sentiu-o, compreendeu a dor do diabo e lhe disse com moribunda entonação:
      - Não suspires... Não te desesperes... É muito possível meu amigo, que também vás ao Paraíso... porque és... um diabo... muito bom...
      O sol verteu manchas sangrentas pelo céu, empurrando o horizonte, extinguindo-se. O velho sacerdote extinguiu-se com o sol. Morreu, abandonando sua querida Florença e todas aquelas terras, que tanto amava.
      Desesperado, o diabo esforçava-se por despertá-lo, falando-lhe com voz rude e áspera:
      - E as estrelas, meu padre? O senhor não admirou ainda as estrelas! O senhor não viu ainda a lua, que está quase a surgir no horizonte, e vai projetar, neste instante, sua pálida luz sobre as lajes da sua amada Florença. Abra os olhos, meu padre, e olhe! Suplico-lhe...
      Quando compreendeu que tudo estava findo, e que seu amigo e protetor estava bem morto, transportou-o para baixo, para sua alcova. Enquanto o levava em seus braços, pensava: "Subi com ele vivo ao campanário e o desço morto!..."
      Uma dor profunda apoderou-se da alma do diabo.
      Agitava-se, chorava, gemia, uivava como um animal feroz, repelando os cabelos: não estava acostumado à dor humana, e manifestava-a de forma ridícula. Tão grande era seu desespero, que apanhando seu único tesouro – o manuscrito despedaçado - o atirou a um canto.
      No entanto, ao fazer isto, não compreendia que, precisamente naquele mesmo instante, se realizava o bem, esse bem intangível e misterioso, que ele procurara com tanto afã e à custa de tantos e tão grandes sofrimentos.
      E não o compreendeu em toda a sua vida. Aquele precioso manuscrito tinha um aspecto muito desagradável. Rasgado, maltratado, com as folhas engorduradas pelas garras dos demônios que o tocaram, achava-se ante os tristes olhos do nosso diabo, que envelhecera muitos anos num só dia. Abriu-o com mão tremula, na primeira página, e mergulhou largo tempo no estudo das linhas cuidadosamente escritas.
      À medida que ia lendo, seus olhos exprimiam espanto e incompreensão. Ao terminar, estava fora de si, de tão surpreso e assustado. Até então, nunca, nem nos momentos mais difíceis de sua vida, teve o diabo um ar tão estúpido e assombrado.
      O manuscrito inteiro lhe parecia uma pilhéria de mau gosto. Dir-se-ia que o velho sacerdote zombava do bem e do pobre diabo que tão ansiosamente aspirava pela virtude.
      Também, o sacerdote havia, com certeza, perdido o juízo nos seus últimos dias, porque, agora se recordava o diabo, balbuciava, com a gravidade de uma criança que diz cândida simplicidade, coisas néscias, atribuindo grande importância às coisas mais insignificantes.
      De qualquer forma ele via, claramente, que o haviam enganado. Perdeu sua última esperança e sentiu-se furioso. Todo o manuscrito, da primeira à ultima página, estava composto de curtas prescrições, que diziam, semana por semana, dia por dia, hora por hora, o que o diabo teria de fazer.
      Não havia nele uma só lei geral, nem uma só regra, nem um só principio. A palavra "Bem", tampouco, era mencionada, uma única vez. Nele figurava simplesmente a descrição minuciosa do que se devia fazer em tal dia e a tal hora. O manuscrito parecia-se, portanto, mais do que qualquer outra coisa, com um livro de receitas.
      O que mais dolorosamente impressionou o diabo foi não ver em todo o manuscrito nem uma só das formosas verdades que a humanidade recolheu durante milhares de anos e que estão destinadas a embelezar o bem. Ele mesmo conhecia inúmeras delas; esperava, com razão, que o velho sacerdote que tanto estudara, colocasse grande quantidade destas verdades em sua obra. Mas não pusera uma que fosse.
      Subitamente um raio de esperança iluminou seu coração. Havia-o feito calculadamente o velho sacerdote, para que o diabo deduzisse por si mesmo as conclusões gerais? O velho sacerdote era muito malicioso...

A Conversão do Diabo - Leonid Andreiev (Parte 11)

A CONVERSÃO DO DIABO

Leonid Andreiev

      Apenas abriu a boca para pregar um sermão e os demais diabos plantaram-se diante dele e começaram também a pronunciar sermões acerca da necessidade do bem, até com mais energia e eloquência do que ele. Todos eram especialistas na arte de mentir.
      Num instante toda a verdade se transformou numa mentira e as mais santas palavras, gritadas por aqueles lábios impuros e desavergonhados, tornaram-se em abomináveis opróbrios. Todo o inferno se encheu de predicadores e de santos. E Satanás, alegre com esta nova diversão, se pôs diante de todos e, morrendo de rir, entoava cânticos religiosos com voz fanhosa.
      Algumas bruxas, velhas e repelentes, representavam comédias cujos assuntos eram a Verdade, o Bem e a Virtude. Nunca, até então, nem nos dias de maiores festivais, teve o inferno um aspecto tão infernal. Vieram depois cenas de obscenidade, cheias de gestos impudicos e, por último, acabaram brigando uns com os outros.
      Nosso diabo, que há muito tempo havia perdido o costume da vida infernal, assim como a força física e a habilidade, era maltratado e batido como nenhum outro. O mais triste de tudo, porém, foi que, no curso da luta, lhe rasgaram o manuscrito. Quando, depois de conseguir livrar-se das mãos de um grupo de bruxas ébrias, deitou sobre o pobre manuscrito um olhar e o viu completamente roto, ficou quase louco de dor, e soltou longos e queixosos gemidos.
      No seu desespero chegou a insultar o próprio Satanás. Este deu tais mostras de cólera, que o infeliz discípulo do velho sacerdote se apressou a fugir. Corria com toda a velocidade que lhe permitiam suas pernas cansadas, apertando ao peito o manuscrito despedaçado. Corria à casa do velho professor, para que este lhe desse outro.
      Mas o velho sacerdote estava moribundo.
      - Espere o senhor um momento! - suplicava-lhe o diabo, ajoelhando-se diante de sua cama. - Espera! Acabam de rasgar o meu manuscrito!
      Durante dez minutos pelo menos, o diabo gritou, gemeu e implorou, rogando que lhe trocassem por outro o manuscrito rasgado.
      Depois, esforçou-se por tranquilizar-se e deixando de lado o manuscrito, aproximou-se ainda mais da cama do velho sacerdote. Após um prolongado silêncio, este abriu, penosamente, os lábios ressequidos, perguntando com voz débil:
      - Fizeste alguma nova tolice?
      O diabo lançou um olhar triste ao manuscrito esfacelado, mas, para não afligir o moribundo, ocultou-lhe a verdade.
      - Não é nada, meu padre, senão que vê-lo assim me enche de pesar. É verdade que o senhor vai morrer? Ou o senhor viverá ainda um pouco?
      - Nem um só dia mais, meu amigo. Ontem fiz os meus preparativos para a grande viagem; decidi, porém, esperar mais um dia, com a ilusão de tornar a ver-te. E aqui estás!... Graças, meu amigo!... Faça o favor de levantar a cortininha da janela; quero olhar os arredores pela última vez.
      Mas pela janela somente se via um cantinho de telhado vermelho e um pedacinho de céu, onde pairava uma nuvem vagarosa. O sacerdote se pôs a contemplá-la com alegria, enquanto o diabo pensava: "O que olha ele? Não há nada a ver: o telhado e um pedacinho do céu... Será porventura a núvem que lhe causa tanta felicidade?..."
      E teve uma idéia. "Vou levá-lo ao alto do campanário: dali verá todas as nuvens que passam no céu e todos os telhados de sua Florença... E assim o fez.
      Sem nada perguntar ao sacerdote, segurou em seus braços musculosos o corpo frágil e extenuado deste e levou-o, com muitas precauções, ao campanário, sobre uma pequena plataforma, da qual se descortinava o admirável panorama da cidade e dos campos circunvizinhos.
      - Agora olhe, meu padre. Isto é melhor do que olhar pela janela. Aqui se aprecia uma vista mais ampla e mais bela.
      Puseram-se, ambos, a olhar, cheios de admiração.
      O sol já estava quase escondido. Na margem oposta do rio Arno, sobre uma elevada colina, distinguiam-se alguns ciprestes negros, que pareciam prontos a perfurar o sol mortiço com suas copas agudas. Na outra margem do rio, os confins do horizonte, estendiam-se as montanhas que, aos suaves reflexos azulados do entardecer, pareciam diáfanas e fantásticas. Toda a formosa cidade estava como que rodeada de gigantescas grinaldas de flores perfumadas. Os povoados longínquos, situados nas encostas da montanha, pareciam florezinhas rosadas, espalhadas aqui e ali. As sombras crepusculares perdiam-se entre as montanhas...

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A Conversão do Diabo - Leonid Andreiev (Parte 10)

A CONVERSÃO DO DIABO

Leonid Andreiev

      Há muito tempo já que estavam queimando o herege e o povo se divertia a valer. O diabo experimentava, também, certa alegria, porque aquilo lhe recordava o inferno. Mas lembrou-se, repentinamente, da mosca, a qual não se atreveu a matar, e as contradições começaram, a desassossegá-lo outra vez.
      Olhou o velho sacerdote e viu que este, mantendo-se de pé à custa de grandes sacrifícios, por causa de sua debilidade, estava pálido de emoção; tremiam-lhe as mãos, nos seus olhos brilhavam lágrimas de felicidade, e todo o seu semblante parecia iluminado por uma divina alegria.
      No inferno, os diabos queimavam, com freqüência, os pecadores, mas durante essa operação seus rostos jamais exprimiram tão grande felicidade.
      Ficou estonteado, sem nada compreender. O sacerdote estava louco de alegria. Regozijou-se tanto com o espetáculo que, de regresso à casa, foi obrigado a se meter no leito, tal era a sua emoção.
      O diabo não se pôde conter e entabulou conversa:
      - Quisera saber, meu padre, por que se regozija o senhor desse modo.
      - Pois é muito natural: acabam de queimar um herege - respondeu o padre com doce acento na voz.
      - Esquece o senhor que está escrito nas Santas Escrituras: "Não matarás?". No entanto, mataram um homem, e o senhor se alegra!
      - Ninguém o matou.
      - Mas se o queimaram!
      - Claro, meu amigo! Queimaram-no, graças a Deus. - Revirou os olhos, deliciado, e seu rosto expressou uma beatitude tão cândida e inocente como a de uma criança.
      O diabo esfregava a fronte enrugada, com sua ampla e peluda garra, e quebrava a cabeça para explicar-se esta nova contradição. "Não entendo nada - pensava. - Provavelmente tudo dependerá de como se faça o bem." E, com o coração opresso, resolveu ter paciência e esperar que o sacerdote concluísse o trabalho. Mas não voltou ao seu cantinho; permaneceu junto ao padre, como criado.
      Servia-lhe a comida, arranjava-lhe o aposento, limpava-lhe a roupa e varria o solo.
      - Em tudo isto - dizia - não pode haver o menor pecado.
      Quando o sacerdote, vencendo sua crescente debilidade, se assentava à mesa para escrever, o diabo esticava o busto largo e musculoso, seguindo o trabalho com o olhar, temeroso de que seu professor cometesse o menor erro.
      Aquele trabalho era a sua única e última esperança.
      Afinal, o manuscrito ficou pronto. A vida de seu autor parecia acabar-se com ele. O sacerdote já não podia se levantar da cama; nela foi obrigado a escrever, deitado, as ultimas linhas. Eram irregulares e pouco legíveis, mas tornaram-se as mais queridas para o diabo, precisamente por serem as últimas.
      Ajoelhado ante o sacerdote moribundo, o diabo recebeu de suas mãos aquela preciosa dádiva, e beijou com verdadeiro amor a mão esquelética que a entregara.
      - Estás contente? - perguntou-lhe o sacerdote. - Pois eu também estou. Mas tem cuidado, para não praticares nenhuma tolice!
      - Agora estou seguro de mim - respondeu alegremente o diabo. – Vou cumprir, palavra por palavra e letra por letra, tudo o que está escrito aqui. A menos que o senhor haja cometido algum erro...
      - Sim; eu sei que porás muito zelo nisso. Mas, pelo amor de Deus! não percas o manuscrito, porque não encontrarias outro... Onde pensas ir? Se não te distanciares muito, vem ver-me de vez em quando. Sentirei falta de ti. Acostumei-me tanto a ver-te! Antes, teu nariz parecia-me muito feio; agora me agrada... O que é o hábito!... Onde pensas ir?...
      - Vou percorrer o mundo ! - respondeu o diabo. - Pena que o senhor morra logo. O senhor devia viver ainda seis meses, pelo menos. Assim poderia lhe contar muitas e boas coisas. Ah! se o senhor soubesse como estou ansioso para fazer o bem! Que lástima que o senhor não possa ver-me trabalhar!
      O diabo partiu, mas eis aqui o que lhe aconteceu:
      Em lugar de começar sua obra com juízo, conforme o programa elaborado pelo velho sacerdote, apresentou-se no inferno, para nele propagar o bem.
      Por que o fez?
      Não se sabe. Talvez tenha perdido a razão, de alegria, talvez movido pelo orgulho e pela vaidade e quisesse exibir-se perante os demais diabos, ou talvez tivesse sentido a imperiosa necessidade de visitar o lugar de seu nascimento.
      O caso foi que mal abandonou a casa do sacerdote, encaminhou-se diretamente ao inferno, sem a mínima hesitação.
      Qual foi o resultado da visita?